A cada ciclo eleitoral, o roteiro se repete com uma previsibilidade quase cínica. A segurança pública desponta não como uma política de Estado a ser debatida com a gravidade que exige, mas como o eterno calcanhar de Aquiles das administrações e, simultaneamente, a vitrine preferida dos salvadores da pátria.
As promessas, invariavelmente, orbitam o mesmo buraco negro: o recrudescimento penal, a militarização ostensiva e o investimento maciço em estratégias puramente reativas. Vende-se a ilusão do chumbo como panaceia social.
Mas é imperativo questionar: qual população aplaude essa promessa de mais dureza? A resposta revela as fraturas expostas da nossa sociedade. Aplaude, de um lado, uma elite encastelada que enxerga na força estatal a manutenção de seus privilégios e a blindagem de seus domínios.
Lado outro, aplaude uma base trabalhadora exausta e aterrorizada, que, no vácuo de políticas públicas eficientes, agarra-se ao punitivismo como um bote salva-vidas em um mar de barbárie. O medo é um excelente cabo eleitoral.
Contudo, a história e as estatísticas são implacáveis: a dureza das intervenções resolve o problema da segurança pública? A evidência empírica grita que não. O encarceramento em massa e a lógica de confronto nas periferias apenas retroalimentam a engrenagem da violência. Trata-se de enxugar gelo com uma toalha ensanguentada. O Estado gasta fortunas na reação bélica porque se recusa a investir centavos na prevenção estrutural.
O que nos leva à pergunta central: mas, afinal, qual é o problema da segurança pública? O problema não é a ausência de viaturas, mas a presença sufocante da desigualdade. A criminalidade urbana, em sua esmagadora maioria, é o sintoma purulento de uma doença crônica chamada exclusão. É a falência da educação, a precarização do trabalho, a ausência de infraestrutura básica e a negação sistemática da dignidade humana.
Para compreender essa dinâmica, precisamos retroceder: a partir de quando surgiu a necessidade de uma segurança pública? Do ponto de vista histórico e antropológico, a força policial nasce no exato momento em que a sociedade decide que a propriedade privada vale mais do que a vida coletiva, e que as divisões de classe precisam ser mantidas pela coerção.
Se desde a invenção da sociedade moderna foi preciso estabelecer uma força armada de controle e contenção interna, temos aí a pista inegável de que já começamos errado. O pacto civilizatório não foi fundado na cooperação, mas na submissão.
Diante desse diagnóstico sombrio, o que realmente queremos?
Queremos e temos o direito inalienável de viver numa cidade em que o direito de ir e vir não seja uma liberdade condicional, tutelada pelo horário, pelo CEP ou pela cor da pele. Queremos caminhar pelas ruas com um celular na mão sem que esse ato banal seja um cálculo de risco de vida. Queremos, acima de tudo, o direito de viver numa urbe onde o "outro", o transeunte que cruza nosso caminho à noite, seja visto simplesmente como outra pessoa, e não como uma ameaça iminente.
Quando o olhar que lançamos ao nosso concidadão é permeado pelo terror, isso significa que falhamos, em algum momento da nossa história, como coletivo. A paranoia urbana é o atestado de óbito da nossa coesão social.
Compreender as raízes profundas da violência é o primeiro e indispensável passo para construir uma sociedade em que o medo não seja o fiel da balança da nossa liberdade.
Continuar apostando nas velhas cartilhas de repressão eleitoreira é insistir no erro que nos trouxe a este abismo. Se o nosso modelo de convivência exige cassetetes e fuzis para se sustentar, talvez a reforma não seja suficiente. De repente, para alcançarmos a paz que tanto almejamos, temos que ter a coragem de começar tudo novamente.