Sair
Assine
Entrar

Brasil

Em um voo em constante turbulência, pode ser melhor afastar o piloto

Há quase três anos não sabemos o que é “céu de brigadeiro”. As bizarrices de um governo capaz de bater seus próprios recordes de insensatez é algo que há muito tempo não tínhamos experimentado

Publicado em 30 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

30 ago 2021 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Bandeiras do Brasil e do Mercosul a meio-mastro em frente ao STF
Bandeiras do Brasil e do Mercosul a meio-mastro em frente ao STF Crédito: EBC/Arquivo
Brasil não é para amadores. Essa frase é aplicada sempre que algo acontece no cotidiano brasileiro, seja em qualquer seara, e suscita reações estarrecedoras. Desde mil e quinhentos, o Brasil coleciona histórias que fazem com que a frase se confirme na prática.
As narrativas que trazem à baila a formação do Estado e da sociedade brasileira são regadas de detalhes que fazem parte da constituição do que somos, inclusive as marcas das violações que restaram cravadas em almas e corpos, e que dizem muito do que temos, somos e reproduzimos.
Os embricamentos dos fatos, tidos como oficiais ou oficiosos, convivem em constantes movimentos de alianças e rupturas, que emergem no campo político e se espraiam para todas as áreas da vida. Momentos de efervescência são intercalados, geralmente, por espaços de calmaria, onde pode-se respirar até que o próximo fato que cause uma crise. Esse é o bailar natural da vida humana. Um esquenta e esfria, como diria Guimarães Rosa.
Entrementes, desde 2019, com a assunção de um governo negacionista e violador, não se tem um momento de respiro. É como se estivéssemos em um voo em constante turbulência: arremetendo, decolando ou aterrissando, sem as máscaras de oxigênio disponíveis e sem equipe de segurança.
Há quase três anos não sabemos o que é “céu de brigadeiro”. Ao desviar de uma nuvem “cúmulos nimbus”, encontra-se outra pior. As bizarrices de um governo capaz de bater seus próprios recordes de insensatez é algo que há muito tempo não tínhamos experimentado.
Impossível, e até arriscado, tentar dormir perante um governo que trabalha diuturnamente para eliminar direitos, afrontar a ciência, colocar em risco de forma deliberada a população, utilizar como prática a contrainformação e agir com base na ameaça. Enganam-se aqueles que pensam que todos evitam ou não gostam do caos. Pelo contrário, estamos diante de um governo que sobrevive do caos.
Com uma instabilidade constante, que se apresenta como modus operandi para alcançar os objetivos a que se propuseram, seguem firmes no projeto totalitário e se afastam dos princípios que sustentam o Estado Democrático de Direito, distorcendo narrativas e esgarçando hermenêuticas.
Assim, firma-se como um governo que sabe muito bem o que faz e o que quer, e passa a obviedade de seus objetivos debaixo das pestanas institucionais, que ainda inertes e com posturas contemplativas, assistem a uma massa de miseráveis que vai morrendo à mingua.
Para evitar a turbulência é preciso desviar das nuvens, mudar de rotas e por vezes abortar procedimentos. A grande questão quando a turbulência é causada por alguém que se encontra dentro da aeronave e pilota negligenciando procedimentos de segurança.
Cabe à companhia aérea tomar providência, contudo, se isso não for feito, em derradeiro caso, os passageiros, assumindo o protagonismo de quem quer salvar a vida de todos, podem adotar as medidas cabíveis para afastar o piloto, e quem sabe, fazer com que ele perca sua autorização para voar.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Chocolate quente cremoso
Receita de chocolate quente cremoso pronta em 5 minutos: veja como fazer
Imagem BBC Brasil
As guerras na Ucrânia e no Irã são parte de uma mesma guerra mundial, diz professor americano
Título de eleitor, voto
Dois alertas importantes para o eleitor brasileiro

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados