Não há a possibilidade de construir nação e país sem projeto e horizonte de esperança. Hoje, somos um “país que não é nação”, na feliz definição de Cristiano Romero. Caminhamos bem da fundação da Nova República em diante, por três décadas, com estabilidade econômica e política. Mas desandamos de 2012/2013 para cá, com instabilidade econômica e política. Quase uma década de regressão. Como dizia Tom Jobim, “o
Brasil não é para principiantes”.
Acelera-se, agora, um processo de entropia. Anomia social e fratura no sentimento de pertencimento a uma nação. Estamos aprofundando entropias na direção de um sombrio 2022. Na economia, a frágil recuperação pós-crise de 2021, impulsionada pelo hiato de produto, está chegando ao fim. Na política, confusão institucional e graves falhas de governança. O
presidente Bolsonaro ainda reina, mas não governa. Fiascos em série na gestão do país.
Eduardo Galeano dizia que a utopia está no horizonte. “Por mais que eu ande, nunca a alcançarei. Então qual é o propósito da utopia? O propósito é este: continuar caminhando”.
Fui reler Rutger Bregman. Defensor das utopias, ele nos lembra que a política com “p” minúsculo age para reafirmar o status quo e a Política com “P” maiúsculo age para querer se libertar do status quo: uma questão “não da arte do possível, mas da arte de tornar o impossível inevitável”. O Brasil praticou Política com “P” maiúsculo ao tornar inevitável a estabilidade econômica (FHC) e, depois, a inclusão social (Lula). E agora?
Quem vai mobilizar a esperança? Agora, o espírito da época requer a coragem para um projeto estrutural de sustentabilidade, em sentido amplo: nova matriz de investimentos públicos e privados; renda básica; mudanças climáticas e economia verde; novo modo de vida. Sustentabilidade. Este é o nome do jogo. Bergman mostra que é necessário ir além do status quo para os políticos se sustentarem no poder. É preciso, diz ele, tornar o radical razoável. Pensar para além do consenso do status quo, que foi congelado em torno dos freios e limites da dívida pública e da carga tributária e do “custo” do combate a pobreza.
Só com a substituição do negacionismo por uma nova ideia-força que aponte um caminho alternativo ao status quo será possível diminuir a tensão política no país. Aqui, a tensão política supera a média mundial. Uma terceira via é capaz de ser construída em torno de um nome e de uma nova proposta? Hoje, esta via está distante e, se demorar, poder perder o timing.
Buscar outra narrativa. Um novo consenso galvanizado por novas propostas: reformas estruturais no projeto de desenvolvimento do país, diminuindo a financeirização; diminuição do fosso social, a partir da renda básica, da educação básica e fundamental e da reforma do Estado; inovação, com efeitos multiplicadores nas mudanças climáticas, no modo de vida, na inclusão digital; e profundas reformas políticas para (re)institucionalizar a governabilidade e a democratização da democracia. Vamos deter a regressão civilizatória?