O Rio Grande do Sul desde semana passada tenta sobreviver diante das consequências do grande volume de chuvas que provocou inúmeras consequências, sendo algumas irreparáveis, como a morte de dezenas de pessoas. O Espírito Santo assistiu, também na semana passada, a três policiais militares serem baleados, um deles de forma gravíssima, enquanto trabalhava.
Os dois fatos, embora em lugares diferentes e de natureza diversa, possuem um ponto em comum, e que nos remete a uma pergunta ao tempo que produz um mal-estar: o que fazemos entre uma tragédia e outra?
Ambos os fatos arrasam vidas e têm como causa geratriz a negligência acumulada de anos. Quando se manifesta em sua mais dolorosa versão, destrói tudo o que está pela frente, sem muita chance de reparo.
Fatos semelhantes aos que ocorreram são mobilizadores da opinião pública, da análise dos especialistas, de manifestações de personalidades, da tomada de providências paliativas e de anúncio de medidas futuras. Até outra vez acontecer. E assim, caminhamos enquanto humanidade. De forma capenga, improvisada e retaliada, assistindo a dor do outro, nos compadecendo superficialmente, até no dia em que bata à nossa porta.
A ocorrência de episódios como esses nos revela como os seres humanos são movidos por necessidades, mas, a grande maioria, insiste em não aprender com a dor do outro. Pouco ou quase nada, não depende de ações e decisões dos atingidos diretamente. O legado de décadas de irresponsabilidade ambiental, no primeiro caso, e inadequação de cuidados, insuficiência de investimentos e inapropriação de formação sistêmica, no segundo caso, resulta nos acontecimentos que testemunhamos na semana passada.
O mal-estar produzido a partir de acontecimentos utilizados aqui como mote para refletirmos como podemos agir para evitar que de novo aconteça, nos remete ao convite feito por Freud após a Primeira Guerra Mundial, quando escreveu sua obra "O Mal-estar na Civilização". Sustentava que o mal-estar é produzido devido à existência de uma dicotomia entre o individuo e sociedade, ou melhor, a existência entre um choque entre o desejo de individual e as expectativas sociais.
Para Freud, se no curso do tempo o ser humano não for capaz de distrair seus impulsos agressivos de destruição da sua própria espécie, e continuar a odiar uns aos outros por pequenas disputas e a matar por ganhos mesquinhos, será difícil preservar a existência da humanidade em meio ao conflito entre nossa “natureza” e as exigências da civilização. O mergulho nos escritos de Freud não nos conforta, mas indica o caminho de análise do sujeito e reflexão sobre a sociedade.
Construir algum modo de unidade se firma como necessário para enfrentar as tendências destrutivas e ao modo como se estabelecem os laços entre os seres humanos, com o objetivo de preservar a humanidade.
É necessário indicar os limites e advertir que cada um precisa dar a sua contrapartida. Caso contrário, continuaremos a buscar nossos entes amados, ou em meio aos destroços enlameados ou jogados ao chão crivados de balas ensanguentadas.
O mal-estar precisa produzir potência de mudança, e não somente um sentimento ruim que muitas vezes não compreendemos.