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Verônica Bezerra

A infraestrutura invisível que sustenta a democracia

Quando o Estado se omite e negligencia essa rede, o peso do cuidado não desaparece, ele é privatizado e esmaga os ombros dos mais vulneráveis

Publicado em 20 de Julho de 2026 às 04:45

Públicado em 

20 jul 2026 às 04:45
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

Quando ouvimos a palavra "infraestrutura", a mente humana é quase automaticamente programada para projetar imagens de concreto e aço: rodovias duplicadas, pontes imponentes, complexos hospitalares, redes de fibra óptica e servidores de última geração. 


Há, no entanto, uma infraestrutura que antecede a todas essas, absolutamente invisível aos olhos frios das planilhas econômicas, mas sem a qual nenhuma sociedade sequer existiria. Essa infraestrutura é o cuidado.


Antes que a economia pudesse girar, antes que o primeiro tijolo do desenvolvimento fosse assentado, alguém precisou alimentar uma criança. Alguém teve que passar a noite em claro velando por uma pessoa doente, amparar os passos vacilantes de um idoso ou oferecer o ombro para acolher alguém em profundo sofrimento. O cuidado é a base fundamental da vida. Sem ele, o tecido social simplesmente se desfaz.

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É nesse cenário que a importância do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) se agiganta. O SUAS é o arcabouço institucional que transforma o ato de cuidar, historicamente relegado ao ambiente doméstico e invisibilizado como "obrigação natural" das mulheres, em uma robusta rede de relações, políticas públicas, equipamentos e profissionais qualificados.


Essa estrutura viva se materializa no cotidiano. O CRAS aberto, mais do que uma porta de entrada para benefícios, é um ponto de acolhimento e escuta no coração das comunidades. O acompanhamento familiar é a presença técnica que fortalece vínculos e impede a ruptura de lares vulnerabilizados. 


A visita domiciliar, que passa a ser braço do Estado que chega aonde ninguém mais vai, muitas vezes agindo a tempo de impedir uma tragédia ou um suicídio. A escuta qualificada se consubstancia no olhar atento e na palavra certa que conseguem detectar e romper ciclos silenciosos de violência doméstica. 


A articulação de rede se transforma na retaguarda invisível, mas firme, que garante o sustento e a dignidade de tantas mães solo.


Estamos falando mais do que prestação de serviços ou distribuição de benefícios. Estamos falando de estruturas fundamentais que sustentam a vida humana e garantem a dignidade prevista na nossa Constituição.

Cuidado com idosos Pixabay

A grande ironia da infraestrutura do cuidado é que suas vigas de sustentação não são feitas de cimento, mas de elementos intangíveis. Ela é construída por tempo, presença, vínculos, confiança, responsabilidade pública e trabalho coletivo.


Infelizmente, a lógica tecnocrata muitas vezes falha em compreender essa dinâmica. O tempo gasto por uma assistente social para acalmar uma mãe em desespero não cabe em uma métrica de eficiência de planilha eletrônica.

 

A confiança que um psicólogo constrói com um jovem em situação de rua não pode ser quantificada em um gráfico de barras. E é exatamente tudo isso, o que não aparece nos relatórios financeiros, que faz a proteção social, de fato, existir e pulsar.


Reconhecer o cuidado como infraestrutura exige uma mudança profunda de paradigma. Cuidar é, antes de tudo, uma decisão política. Significa escolher onde o orçamento público deve ser investido e quais vidas merecem ser priorizadas.


Quando o Estado se omite e negligencia essa rede, o peso do cuidado não desaparece, ele é privatizado e esmaga os ombros dos mais vulneráveis, aprofundando a desigualdade de gênero e de classe. Por outro lado, quando o SUAS é fortalecido, a sociedade inteira se eleva.


Portanto, o cuidado não é um ato de caridade isolado ou um mero puxadinho da economia. O cuidado é a infraestrutura da própria democracia. Afinal, uma linha democrática só se mantém de pé se todos os cidadãos tiverem a garantia de que, nos momentos de maior fragilidade da vida, haverá uma rede pública pronta para sustentá-los.


Verônica Bezerra

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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