Vivemos em uma sociedade que estabelece padrões para tudo, sob a pena de não pertencimento. De padrões de beleza a padrões de comportamento, as regras estabelecidas são, na maioria das vezes, seguidas de forma irreflexiva pela maioria das pessoas. Padrões, muita das vezes, inquestionáveis, de uma sociedade que nem sequer sabe a origem deles.
A obediência a esses padrões é definidora de muito do que somos e achamos ter. Uma sociedade heteronormativa, que estabelece “punição” àqueles que são “desviantes”.
Algumas “punições” se apresentam de várias maneiras, sendo a maioria disfarçadas por narrativas e justificativas legais ou morais, que por derradeiro pretende padronizar visando o lucro ou o controle.
Um dos casos esdrúxulos que se soube há pouco foi a ação do Banco Inter, em compartilhar uma cartilha com os funcionários, contendo dicas de estilo e comportamento. O documento intitulado de “Inimigos da Imagem” contém 14 normas que deveriam ser evitadas a todo custo, tais como: telefone celular com capinha velha, acessórios sujos ou estragados, chulé ou cabelo desarrumado. Ao final a cartilha afirmava que, mesmo não parecendo nada demais, não as seguir poderia “prejudicar” e muito a imagem dos colaboradores.
A preocupação com a imagem antecede a essência humana de uma sociedade que foi conduzida pela sua história de constituição a ser classista, racista e capitalista, tem a necessidade de se perpetuar no tempo e no espaço, indiferente ao fato de atingir a centralidade da dignidade da pessoa humana, para manter o estado de coisas que a compõe.
O mais perverso nessa história é que muitas pessoas, para não dizer a maioria, adere aos padrões, de forma tácita, com o ledo engano que estão fazendo escolhas livres, não identificando a imposição que está intrínseca. Essa talvez seja a face mais elaborada de um sistema que tem produzido algo que não saberá lidar com ele.
Padrões foram criados com objetivos definidos, no sentido de criar critérios para se referenciar algo que se deseja construir ou fazer. Ao transpor essa ideia para vidas, inicia-se um processo de objetificação de pessoas, em um profundo desrespeito. A longo prazo, a essência é atingida e as consequências são as mais diversas. Mais uma vez, estabelecem-se padrões para lidar elas.
Esquece-se que a construção de uma vida, biológica ou política, não obedece a padrões, mas prima-se a liberdade e respeita-se as individualidades. Eis a beleza do existir.
O padrão acaba se tornando uma prisão, em que escapar dele requer coragem, no sentido de ser preciso romper com o estabelecido e as continuidades, para mergulhar na essência de si e inventariar o quanto foi roubado de nós nesse processo de pasteurização de vidas.