Uma mulher branca de classe média açoitando um homem negro pobre em local público em pleno dia claro. Cena típica do século XVII, reproduzida nos livros de história, foi atualizada no dia 9 de abril, em um bairro de classe média alta do Rio de Janeiro.
Numa tarde de domingo, uma moradora de São Conrado, no Rio, saiu para passear com seu cachorro e, após reclamar que entregadores andavam de moto sobre as calçadas, começou a desferir chicotadas com a coleira do cachorro para agredir um dos entregadores, proferindo xingamentos deletérios, com o condão de diminuir os trabalhadores.
A conduta dos entregadores, andar sobre as calçadas, pode colocar em risco os transeuntes e precisa ser resolvida de forma diferente daquelas utilizadas pelos senhores de escravos.
A cena de uma pessoa de pele branca agredindo uma pessoa negra avança no sentido de ser uma mera agressão ou desavença e encarna um modelo de sociedade que reproduz o pelourinho moderno, como uma herança de uma história escravocrata.
Até aqui já temos consciência e sofrimento suficientes para identificar e denunciar tais acontecimentos, mas ao ampliarmos as análises, detectamos que nos sistemas de responsabilização oficiais é flagrante a condescendência que reproduz a impunidade e adere ao modelo arcaico, produzido no sentido de pensar que as pessoas são melhores por causa da cor da sua pele.
A velocidade da criação de mecanismos de enfretamento do racismo não é a mesma das mudanças que precisam acontecer na sociedade. Os casos de discriminação por cor da pele acontecem diariamente, nas mais diferentes formas e lugares, sempre seguidas de explicações inexplicáveis, justificativas injustificáveis. Em cenas cotidianas da vida, os desfechos e conduções podem ser diferenciados, a depender da cor da pele.
A história das pessoas de pele negra no Brasil é marcada por mortes, estupros, violência e escravidão, inserida em um contexto determinante na formação do povo brasileiro, que produz a discriminação racial que é uma das realidades mais cruéis da dignidade da pessoa humana.
Após o acontecimento daquela tarde de domingo, que se diga de passagem é crime, um movimento de comoção e revolta tomou algumas pessoas e reverberou nas redes, acarretando, inclusive, a arrecadação do valor de mais de cem mil de reais numa “vaquinha” para que aquele homem negro pudesse comprar sua casa.
A iniciativa poderia até ser digna de nota, mas não é. Somente tenta amortecer a culpa de uma sociedade que ainda se revela omissa diante de todo tipo de discriminação e é incapaz de resolver uma dívida histórica que está longe de ser quitada, enquanto houver uma só pessoa diferenciada pela sua cor da pele.
Racismo não se resolve com “vaquinha”, pois senão, continuaremos assistindo pessoas negras sendo açoitadas por pessoas brancas em praça pública em plena luz do dia.