Diariamente nos deparamos com “vidas instagramáveis”. Postagens de cotidianos perfeitos. Registro do café da manhã, atividades físicas, trabalho, rotina doméstica, cuidados com filhos, vida social, relacionamento amorosos, entre tantos. Ambientes perfeitos, arrumados, cheio de sorrisos, eivado de alegrias, encharcados de sucesso. Enfim, uma felicidade plena.
Vidas típicas retratadas em comerciais de margarina. Mesmo quando se utiliza as frases “quem vê close não vê corre” ou “a arte de equilibrar os pratinhos”, a performance que é apresentada se equipara a mulher-maravilha ou super-homem. Personagens reificados de uma vida inventada, que está longe da realidade do ser interno de cada um.
A ditatura da vida feliz e sem percalços nos faz refém de um mundo que foi pensado para isso, com a sentença de quem não alcança esse objetivo está fora do padrão social esperado para se sentir pertencente a um sistema que a cada dia produz mais desigualdade e opressão, e consequentemente, doenças. Uma exímia falácia, pois a rede social não mostra as pessoas com suas receitas azuis à mão e enfileiradas nas farmácias das esquinas comprando seus ansiolíticos ou antidepressivos.
O alcance de uma vida equilibrada, abrangendo as diversas dimensões do cotidiano: profissional, pessoal, espiritual e social, tornou-se uma busca meritocrática, a qual determina que se você se esforçar o suficiente será capaz de dar conta de todas as áreas da sua vida, sem cansaço e com belo sorriso no rosto entupido de botox.
É imprescindível saber, para se libertar da prisão neoliberal da vida boa e perfeita, que não se consegue atender as demandas do trabalho, estudar algo novo, limpar a casa, passar a roupa, lavar a louça, ter qualidade de vida, conviver com a família, ter uma alimentação saudável, viajar com os amigos, ler um livro, ter uma renda extra, descansar, fazer uma atividade física, tudo ao mesmo tempo. A vida equilibrada consiste em considerar as forças psicossociais, econômicas, ambientais, conjunturais e circunstanciais, que gravitam ao nosso entorno.
Importante ressaltar que equilíbrio, conceito que vem da física, consiste em um que alcança o equilíbrio quando todas as forças que atuam sobre ele se anulam. Para a vida real isso não se aplica, pois a nossa vida imprime forças dinâmicas sobre nós, muitos acontecimentos nos arrastam, nos exigem improviso, nos tiram do eixo, nos desequilibram, e está tudo bem.
Cada um vive uma realidade diferente, que exige esforços e dedicações diferentes. É uma covardia quando se evoca a meritocracia para alcance de objetivos, quando a realidade é de que as pessoas não partem do mesmo lugar. Quem não precisa se preocupar como vai pagar as contas no final do mês ou quem cuidará dos filhos enquanto trabalha talvez seja mais fácil dar conta dos outros afazeres. Impossível desconsiderar os aspectos faltantes da existência, dado que eles são retratos do nosso lugar na sociedade.
Nem tudo é insuficiente do seu esforço individual, fatores outros atravessam as realidades. Estar ciente do desequilíbrio é o que a vida quer de nós. Priorizar o que faz bem e acolher a insuficiência é o primeiro passo para ter uma vida possível.
Importante começar pelo inegociável, e diante das possibilidades reconheça a sua potência, com o compromisso de que o bem-estar interior deve estar no centro da existência.