“Fumo de rolo, arreio de cangalha / Eu tenho pra vender, quem quer comprar? / Bolo de milho, broa e cocada / Eu tenho pra vender, quem quer comprar? / Pé de moleque, alecrim, canela / Moleque sai daqui, me deixa trabalhar! / E Zé saiu correndo pra feira dos pássaros / E foi passo-voando pra todo lugar” (“Feira de Mangaio”, Glorinha Gadelha / Sivuca)
Sob a égide do determinismo cultural, há quem defenda a ideia que povos de regiões climáticas quentes são menos propensos ao trabalho do que aqueles que vivem em locais frios. A tal conceito se soma a percepção de que algo semelhante ocorre quando se compara as sociedades que praticam o protestantismo quando comparadas com os católicos.
Aí quando a gente pensa que o Brasil é quase todo tropical e, portanto, cálido, e com maioria católica, se podia até imaginar que não tinha como ser diferente, pois não teríamos como mudar uma realidade previamente imposta.
Ah, o que o brasileiro gosta mesmo é de festa!, dirão alguns.
É, isso é algo que ninguém pode negar.
E quem disse que fazer uma festa não dá trabalho? Basta ver ou participar da produção de qualquer um desses nossos folguedos (muitos deles inclusive atrelados à tradição religiosa) que fazem parte da cultura brasileira, para se dar conta do grande engajamento que envolve todos os que se dedicam com afinco à produção dos nossos eventos.
O primeiro, como não poderia deixar de ser, é o carnaval.
Escolas de samba, blocos, trios elétricos, marchinhas, alegorias e adereços, afoxés, frevo, bonecos gigantes, enfim, há tanta coisa criada a partir do festejo momesco que a gente nem se dá conta do tamanho do carnaval. Por conta da sua dimensão, a quantidade de gente envolvida na preparação da festa é enorme, proporcionando uma enorme atividade econômica que atinge grande parte da população brasileira.
Mesmo quem não gosta de samba, se vê obrigado a sambar... as cidades entram em outra rotação, com uma dinâmica própria, com suas ruas abrigando milhares de pessoas em festa, alterando toda a mobilidade urbana. Estradas, rodoviárias e aeroportos lotam, assim como hotéis e pousadas, bares e restaurantes. A polícia e os hospitais mudam suas rotinas.
Pra muita gente que vive no aperto, o carnaval é uma grande oportunidade de fazer uma grana a mais.
Contudo, o que é mesmo de se admirar é a criatividade que atinge aqueles que se dedicam comunitariamente a produzir enredos, fantasias e abadás, carros alegóricos, sambas, pagodes e axés...
Mas para que tudo isso seja realizado com o encantamento que a gente vê nas ruas nos dias carnavalescos, não basta inventividade, pois de nada vale a criatividade sem organização e esforço.
Não obstante, a combinação de tais aspectos – organização, esforço laboral e criatividade –, ao nível da cultura popular não se vê apenas no carnaval.
Ao longo do ano e em todo o país, eventos como o Boi-Bumbá (ou Boi Pintadinho, como o folguedo é chamado em alguns locais), Festival de Parintins, os tapetes de Corpus Christi, as Festas Juninas e assim por diante demonstram a capacidade produtiva e comprometimento do brasileiro com as expressões coletivas que lhe dão sentido de pertencimento.
Pertencer a uma coletividade é, portanto, condição de urbanidade que todos buscamos, independentemente do desejo de individualidade que também nos perpassa. É agindo coletivamente que poderemos nos formar como indivíduos. E aí cada um desempenhará seu papel na construção da coletividade.
Ou seja, é preciso que cada um dê sua contribuição, tendo em troca as condições para vivermos em sociedade. O trabalho, qualquer que seja ele, é parte desse processo.
Muita gente até gostaria de trabalhar com arte e cultura (ou ter o esporte, por exemplo, como meio de vida, para citar outro gênero laboral), mas não só nem todos temos vocação artística (ou esportiva), como tampouco haveria como todo mundo trabalhar num único segmento.
Tem quem plante alimentos para que outros os levem até os centros consumidores; nesses locais, alguns irão transformar a plantação extraída a quilômetros de distância em comidinhas simples de rua ou pratos sofisticados; e do mesmo modo se dá com as demais atividades humanas.
Mas como o assunto aqui, por enquanto, é cultura popular, como é legal saber que a coxinha e o pastel de feira recentemente apareceram na lista das melhores comidinhas de rua do mundo!
Daí que a gente vê que muitos daqueles brasileiros que não possuem vocação (ou oportunidade) em trabalhar com arte e cultura se descobrem com talento para empreender, indo pra rua vender coxinha ou pastel, ou água de coco, churrasquinho, picolé e até mesmo acarajé, como fazem as baianas nas ruas de Salvador, e que já virou patrimônio imaterial da Bahia.
É isso, criativo e multicultural como é, muito brasileiro teve que empreender, montar um pequeno negócio para poder pagar as contas.
Dados recentes do mercado de trabalho revelaram que o desemprego no Brasil caiu, registrando a menor taxa desde 2015. Contudo, a maioria trabalha por conta própria, não possuindo carteira assinada, sem vínculo formal com empresas regularizadas.
Enfim, é bom saber que o brasileiro não foge à luta. Mas também é certo que não dá pra fazer tudo sem a participação do poder público, bem como sem regulação que garanta tanto direitos como obrigações no bojo da sociedade.
Deste modo, seja um bloco carnavalesco, seja uma carrocinha de churrasquinho, para ambos saírem às ruas, é preciso licença e fiscalização.
Contudo, considerando que tanto regulações quanto poder público instituído são definidos democraticamente, se pode considerar que o papel deles não é criar dificuldades, mas dar as melhores condições para que o povo possa exercer com criatividade sua capacidade empreendedora e assim tenhamos cada vez melhores expressões culturais e mais ocupações laborais.