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Arquitetura

Palácio Gustavo Capanema é patrimônio do povo brasileiro

Prédio no Rio de Janeiro é considerado um dos primeiros edifícios em grande escala da arquitetura moderna em todo o mundo e ilustrou páginas em centenas de livros e revistas de arquitetura publicados em diversos países

Publicado em 26 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

26 ago 2021 às 02:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Palácio Capanema
Palácio Capanema, no Rio de Janeiro Crédito: Divulgação/Iphan
“Ícone da arquitetura modernista no Rio, inaugurado em 1946 como sede do Ministério da Educação e Saúde Pública, o Palácio Gustavo Capanema é uma das estrelas do ‘feirão de imóveis’ que o governo fará por meio de um novo sistema de vendas”. (“Jornal Valor Econômico”, 13 de agosto de 2021)
Todo arquiteto ou mesmo estudante de arquitetura brasileiro conhece bem a fascinante história da gestação do edifício do antigo Ministério de Educação e Saúde, projetado e construído ao longo do governo de Getúlio Vargas. Mas, como nem todo mundo é formado ou estuda arquitetura, não custa contar resumidamente como as coisas aconteceram.
Pensando numa construção simbólica, que marcasse uma visão de futuro para o país, tendo a educação como um dos pilares deste plano, o então governo promoveu um concurso público para a escolha do projeto do novo edifício do ministério. O Rio de Janeiro ainda era sede do governo federal, e Brasília nem sequer existia.
Naquela época, se o modernismo já se consolidava na Europa, onde tinha nascido por meio da mente e mãos de arquitetos como Walter Gropius ou Mies Van Der Rohe, ou mesmo artistas como Wassily Kandinsky ou Pablo Picasso, no Brasil ainda havia posições contrárias à modernização não só das artes e da cultura, como de toda a sociedade.
É o que hoje chamamos de posição retrógrada, preconceituosa e arcaica baseada numa ideia de tradição que só beneficiava algumas elites oligárquicas que queriam manter o status quo que gozavam. Isso lembra algo do que vemos nos dias atuais?
O resultado do concurso espelhou a ambiguidade daquele momento. O projeto vencedor apresentava uma proposta de arquitetura eclética, olhando para o passado, ao contrário do ideal modernista de mirar pra frente, para o futuro.
O ministro Gustavo Capanema, que hoje dá nome ao edifício, decidiu pagar o prêmio, porém abortar aquele projeto. Aí entrou em jogo o arquiteto Lucio Costa, convidado para montar e liderar uma equipe composta por arquitetos modernistas que tinham participado do concurso, como foi o caso de Affonso Reidy e Carlos Leão. Foi nesse momento que um jovem se ofereceu para também integrar a equipe: Oscar Niemeyer.
Mas neste atribulado enredo que mais parece de uma telenovela, o melhor ainda estava por vir. Lucio Costa e equipe encasquetaram com a ideia de contar com a participação no desenvolvimento do projeto do mais influente arquiteto do mundo, o franco-suíço Le Corbusier.
Inicialmente o ministro foi relutante, mas acabou convencido, e o radical modernista europeu veio ao Brasil, contribuindo com suas ideias não só para que o prédio do ministério se tornasse um marco arquitetônico, mas também deixando aqui sementes que brotaram, influenciando uma nova geração que fez da arquitetura brasileira uma das mais pujantes do modernismo mundial.
O projeto definitivo, que hoje encontra-se de pé na região central do Rio de Janeiro, foi feito após a volta de Le Corbusier à Europa. Lá, por causa da 2ª Guerra, ele acabou perdendo contato com o grupo de projetistas brasileiros, só sabendo da realização da obra tempos depois.
Revolucionário, o Palácio Gustavo Capanema não apresentava apenas uma arquitetura inovadora para a época. Trata-se de uma construção que se integrava com outras manifestações artísticas também modernistas, como o mural de azulejos de Portinari, jardins de Burle Marx ou esculturas de Bruno Giorgi.
É considerado um dos primeiros edifícios em grande escala da arquitetura moderna em todo o mundo. Ilustrou páginas em centenas de livros e revistas de arquitetura publicados em diversos países. Críticos, pesquisadores e até mesmo arquitetos internacionais não conseguiam entender como um país, teoricamente atrasado e pouco desenvolvido como era o Brasil (será que algo mudou?), foi capaz de realizar uma obra tão inspiradora.
A partir dali, a arquitetura moderna se tornou hegemônica no país, até o ápice da construção de Brasília, cujo projeto urbanístico é de Lucio Costa, enquanto que a arquitetura dos principais edifícios governamentais foi desenvolvida por Oscar Niemeyer.
O Palácio Gustavo Capanema é patrimônio do povo brasileiro! Faz parte da nossa história. Não é um produto a ser vendido. Não é uma commodity, como é o minério de ferro, o café ou a arroba de boi.
Tão logo se soube da intenção de venda do mítico edifício, circularam manifestações, que vão do cidadão comum, passando por artistas e intelectuais renomados, repudiando a absurda ideia. Parece que deu certo, pois já chegam notícias que o Ministério da Economia retirará o Palácio Capanema da lista das obras a serem leiloadas.
Não é muito, mas é melhor do que nada, pois não basta ter a posse de um bem, é preciso zelar por ele. Tragédias recentes, como os incêndios no Museu Nacional ou na Cinemateca Brasileira por negligências de quem deveria zelar por tais instituições, são exemplos daquilo que não queremos para o patrimônio cultural brasileiro.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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