“Hoje o tempo voa, amor / Escorre pelas mãos / Mesmo sem se sentir / Não há tempo que volte, amor / Vamos viver tudo que há pra viver / Vamos nos permitir” (“Tempos Modernos”, Lulu Santos)
Mais um ano que se iniciou, quando a passagem do tempo trouxe a esperança de dias melhores para este novo ciclo, mas ainda com bastante indefinição, algum temor, certa insegurança haja vista tudo que passamos nesses tempos recentes.
O marco temporal acaba sendo um prelúdio capaz de criar expectativas positivas em relação ao futuro. Um recomeço repleto de perspectivas.
Assim vinha sendo ano após ano, até que veio esta pandemia, que ainda está por aí, e que mudou o ritmo das nossas vidas. E do mesmo modo quando neste nosso país pensamos, por exemplo, em economia ou eleição, o que nos bate é certa aflição com o porvir.
Acho que todos concordam que, nesta travessia, o mar estará bastante revolto.
Mas, enfim, vamos em frente!
A compreensão dos diversos ciclos temporais, na maneira em como eles nos afetam, é inerente ao modo do homem se relacionar com o mundo no qual vive.
Bem, na verdade, não é algo exclusivo à humanidade, mas a todos os seres vivos deste planeta. Flores que se abrem sempre à mesma hora do dia; árvores cujos frutos amadurecem e as folhas caem num determinado período do ano; aves que migram através de continentes enfrentando chuvas e ventos e, do mesmo modo, poderíamos citar o movimento das marés em função das fases da lua e assim por diante.
Aliás, nos primórdios da civilização, além das fases lunares e, obviamente do movimento do sol, o ciclo mensal da menstruação da mulher também foi uma espécie de unidade de medida de tempo.
Muito diferente do mundo contemporâneo, no qual segundos fazem diferença. São tempos em que o que vale é o imediatismo, quando tudo tem que ser instantâneo, pois palavras como aguardar, esperar, planejar... já não possuem significado.
Diariamente vemos veículos conduzidos por motoristas que avançam os semáforos das nossas cidades, pondo suas próprias vidas e as de terceiros em risco, pois não querem perder um minuto sequer.
Time is money!
Algo curioso são os vídeos que circulam na internet com resumos de filmes, cujo público são pessoas que dispensam o prazer de ver o filme completo. Pra que gastar duas horas da vida vendo um filme inteiro se se pode saber qual é o enredo, os personagens e o final em apenas 10 minutos? Contudo, imagino que aqueles que fazem tais vídeos devem perder horas para editá-los, precisando inclusive ver antecipadamente aquele filme que se propõem a comentar.
Um tempo atrás já haviam os resumos de livros, mas esses eram feitos principalmente por causa dos conteúdos escolares, já que disciplinas como Português costumam cobrar tais conhecimentos nas suas avaliações. E aí os alunos que não queriam perder tempo lendo o texto completo, recorrem aos resumões.
Já no caso dos filmes, um entretenimento hegemônico principalmente em tempos de streaming, é mesmo inusitado saber que muita gente prefere assistir os vídeos de resumo ao invés da cinematografia original.
Aparentemente, o amanhã é algo inexistente, pois só se quer viver o agora. O passado, é melhor ser esquecido. E o futuro é incerto. Então, nada mais importa...
Neste mundo, ninguém quer envelhecer. A experiência não conta.
Estamos todos conectados em tempo real. Ser jovem é estar antenado a tudo que rola nas mídias, nos gadgets, nos memes.
A piada de ontem já não faz sentido hoje.
Os jovens sabem que o que estudam hoje logo estará obsoleto. E o que precisam aprender ainda é uma incógnita.
E como se constrói um futuro nestas condições?
Ou será o futuro um mero acaso, um destino incerto no final de uma longa e desconhecida estrada?
Será que tudo isso é resultado das frustrações vividas pelas gerações anteriores, que viram seus sonhos esvaírem pelos ralos?
Será que ainda seremos capazes de fazer com que a juventude anseie com o futuro?
Porém, se somos o único ser vivente capaz de sonhar, então ainda resta esperança que somos capazes de construir nossa própria história e é nela que temos que nos agarrar.
Vambora então botar a galera pra rua, pra viajar pelo mundo, pra cantar alto, bater lata, ler um livro, ver um filme...
“Eu vejo um novo começo de era / De gente fina, elegante e sincera / Com habilidade pra dizer mais sim do que não”