“Estou no colo da Mãe Natureza / Ela toma conta da minha cabeça / É que eu sei que não adianta mesmo a gente chorar / A Mamãe não dá sobremesa” (“Mamãe Natureza”, Rita Lee)
Segundo nos conta Lewis Mumford em seu clássico livro “A Cidade na História”, o surgimento da agricultura se deu graças às mulheres. Nas primitivas aldeias neolíticas, quando o homem saía em bandos para caçar, as aldeãs não só cuidavam das casas e dos filhos, mas também iniciaram o cultivo de vegetais comestíveis a partir da observação e seleção de quais sementes produziam as melhores plantas.
De lá pra cá, a humanidade cresceu exponencialmente, deixando as aldeias pra trás e mudando-se para as cidades, que se tornaram metrópoles e demandam hoje uma enorme quantidade de alimentos para as pessoas que nelas vivem.
Mas, para que tudo isso ocorresse, desenvolveu-se uma radical transformação nas técnicas de plantio, apesar de sua essência ainda ser a mesma desde o tempo das antigas aldeias: boa terra, sementes saudáveis, água, sol e trabalho.
O Brasil, que atualmente é um líder mundial na produção de alimentos, boa parte da qual segue para os supermercados de diversos países, sempre teve condições excelentes para a agricultura. Isso, porém, se deu à custa da derrubada de muita mata, quando ainda não se havia consciência ecológica, legislação ambiental e preocupação com o futuro do planeta.
Tais questões são conquistas da nossa sociedade, na verdade um pacto político-social que, infelizmente, agora se vê ameaçado.
Com o nível de conhecimento tecnológico que o país detém hoje e também considerando o mapeamento do território, que delimita quais são as áreas ambientalmente protegidas, as áreas agrícolas e as áreas urbanas, é possível ampliar a produção de alimentos sem expandir nenhum dos limites territoriais existentes.
Contudo, a ganância de alguns indivíduos põe em risco, não só para eles, mas para todos nós, o equilíbrio com a natureza que viemos há séculos tentando preservar. A mãe natureza, na sua generosidade, é como aquelas pessoas pacientes que, sorridentes, aguentam os chatos, os briguentos, os arruaceiros, mas até um certo limite, quando explode numa improvável reação de raiva ou angústia, que espanta a todos ao seu redor.
E ela já tem mandado alguns recados, entre eles a falta d’água como ocorre agora neste país, sempre farto em chuvas. Os reservatórios estão vazios, o custo da energia aumentou, algumas regiões já estão com racionamento no abastecimento de água e a cesta básica vai subir radicalmente, pois a irrigação precisará ser reduzida, aumentando o preço dos alimentos.
E como nada está tão ruim que não possa piorar, nessa equação que mexe com o bolso e a barriga dos brasileiros, ainda tem o custo do frete, em razão dos aumentos constantes no preço dos combustíveis.
Nesse cenário dramático, que mais parece um filme de terror, no qual o odioso poderia ser interpretado pelo Béla Lugosi, é até difícil entender como ainda tem gente que acha que esse é o caminho rumo ao céu, afinal andam por aí defendendo o vilão da história.
Pegando a metáfora do cinema, ou melhor, das séries, que vêm tomando conta dos canais de streaming, cujas produções muitas vezes são feitas com rostos desconhecidos, é gratificante saber da nova tendência na produção agrícola que vem se espalhando por muitos países, ou melhor, por muitas cidades: as fazendas urbanas.
A partir da iniciativa inovadora de uma nova geração que percebeu a urgência da questão alimentar que se soma ao risco ao meio ambiente, a “expansão” agrícola agora ocorre dentro da própria cidade.
Mundo afora, diversas cidades como Cingapura, Los Angeles, Berlim e até mesmo São Paulo já possuem projetos do tipo. Trata-se de locais que promovem o cultivo de vegetais comestíveis em espaços fechados, verticalizados, por meio do controle eficaz de luz e água, sem uso de agrotóxicos e com baixo risco de contaminação por pragas.
Como são projetos incipientes, o total desta produção agrícola ainda não é suficiente para resolver a enorme demanda de alimentos da população urbana, mas não deixa se ser uma esperança, afinal, a fome é um grande desafio mundo afora. Segundo dados recentes da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), aproximadamente 10% da população mundial encontra-se subalimentada.
Uma das vantagens das fazendas urbanas é a possibilidade de dar uso a áreas abandonadas ou que não tenham vocação residencial ou comercial das cidades. Mas cabe ainda ressaltar a aproximação entre produção e consumo, reduzindo não só gastos com combustíveis e, consequentemente, com o frete, mas também diminuindo a emissão de gases de efeito estufa. A mãe natureza agradece!