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Sociedade

Grandes condomínios estão se tornando o padrão habitacional da vida insossa

Eles ocupam grandes extensões territoriais, formam guetos que segregam a cidade, inibem a circulação pelas vias públicas e estimulam o uso do automóvel

Públicado em 

06 nov 2024 às 22:30
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

“Calvin: no futuro, tudo será feito sem esforço! Os computadores cuidarão de todas as tarefas. Nós só teremos que clicar no que queremos que seja feito. Nunca precisaremos deixar o conforto das nossas casas climatizadas. Sem chateação, sem perda de tempo, sem interação irritante com seres humanos...
Haroldo: ... sem vida.
Calvin: a vida é muito inconveniente.” (“Calvin e Haroldo, o mundo é mágico”, Bill Watterson)
Os lançamentos imobiliários que vemos atualmente em diversas cidades brasileiras, principalmente no segmento voltado para alta renda, como ocorre em Vitória, por exemplo, oferecem tantas comodidades aos moradores que dá mesmo pra acreditar que já não será necessário estar em contato com o mundo exterior e com pessoas que não fazem parte daquele ambiente.
Lembro-me das últimas décadas do século XX, quando ainda morava no Rio de Janeiro, em que começaram entrar na moda os condomínios na Barra da Tijuca, com nomes sugestivos como Nova Ipanema e Novo Leblon, e cujas propostas eram mesmo que as pessoas ali pudessem viver sem precisar sair daquele espaço para nada.
A partir dali esse foi um modelo urbanístico idealizado por muita gente Brasil afora, em que os Alphavilles só vieram confirmar a segmentação comunitária que nega o conceito de cidade como um lugar de encontro de pessoas, experiências e oportunidades.
A questão da violência urbana ajuda a fomentar tal opção de vida, mas não dá pra negar que se trata de um modo de exclusão que, ao formar guetos, apenas retroalimenta as tensões socioculturais entre os diversos segmentos econômicos que conformam a população das cidades.
O problema é que a ideia de espaços confinados não se destina apenas aos lançamentos residenciais para alta renda. Muitos empreendimentos voltados para a classe média, ou mesmo os “Minha Casa Minha Vida”, que ocupam terrenos extensos, com muros longuíssimos, sem nenhum tipo de atividade comercial que traga movimentação para as vias públicas, estão se tornando o padrão habitacional no país.
É curioso, pois há uma grande contradição nisso, já que ocorre tanto um distanciamento quanto um ajuntamento. Dito de outro modo, a população dos condomínios se excluí daquelas que vivem em outros condomínios, na mesma medida que se ajuntam dentro do perímetro dos conjuntos habitacionais em que vivem.
Enquanto isso, a cidade que sempre admirei vai perdendo sua razão de ser.
Pra que andar por calçadas com lojas sob prédios cheios de gente, gente que a gente nem sabe quem é, mas que traz a vivacidade do inusual, quando todo mundo quer morar isolado? Se dentro do condomínio são sempre as mesmas pessoas, então a vida ali já está toda programada, tão segura quanto entediada.
Bem, nem sempre é tão entediante morar em condomínio, pois é comum haver conflitos entre vizinhos.
Não é por acaso que a ficção tomou esse tema na série “Os outros”, que se passa num condomínio no Rio de Janeiro, e que já está na sua segunda temporada. Mas tanto é verdade que temos o caso chocante do policial que matou seu vizinho músico em Vitória, por conta de um desentendimento por causa da música alta.
Série
Série "Os Outros", do Globoplay Crédito: Globo/Divulgação
Na verdade, o modelo de cidade equilibrada se dá com a existência de condomínios residenciais. Esses, porém, deveriam ser apenas aqueles conjuntos de porte pequenos e médios, formando pequenas comunidades que, em seu conjunto de vizinhança, como ocorre nos bairros, harmonizam e dinamizam as diversas zonas das cidades.
Os grandes condomínios, ao contrário, que ocupam grandes extensões territoriais, formam guetos que segregam a cidade, inibem a circulação pelas vias públicas e estimulam o uso do automóvel. Muitos empreendimentos até são comercializados com a mensagem de que são ambientalmente sustentáveis, o que é uma grande mentira, já que fomentam o espraiamento urbano.
É claro que tais questões passam desapercebidas para as famílias que desejam morar num belo condomínio repleto de comodidades, daí por que não podemos simplesmente desqualificar o sonho delas. Mas sempre cabe o alerta, afinal, mesmo com seus problemas, a cidade ainda é o melhor lugar para morarmos, estudarmos, trabalharmos e nos divertirmos.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

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