“Com as energias da humanidade dirigidas para canais construtivos, a face do mundo fora refeita. Era, quase literalmente, um mundo novo. As cidades que haviam servido às gerações anteriores tinham sido reconstruídas – ou abandonadas e deixadas como cidades-museus, quando haviam cessado de ter utilidade. Muitas delas já tinham sido abandonadas, pois todo o sistema de indústria e comércio havia mudado completamente”. (“O fim da infância”, Arthur C. Clarke)
A história urbana nos mostra como as cidades foram fundamentais no desenvolvimento da sociedade tal como a conhecemos hoje. Paralelamente, se pode avaliar as várias formas da cidade ao longo do tempo, isto é, como vem se dando sua transformação, até chegarmos ao momento presente.
É certo ainda que houve períodos e locais aonde a cidade se cristalizou, mostrando-se como um lugar idôneo aos grupos humanos que a ocuparam à época, como foi o caso das urbes gregas e romanas séculos atrás. A ágora grega ou o fórum romano ainda hoje são inspiradores a muitos historiadores e urbanistas, como também deveriam ser aos políticos do nosso tempo.
Por outro lado, há quem argumente que aquelas eram sociedades que contavam com uma classe de pessoas, os escravos, que, de outra forma, inviabilizaria o funcionamento de tal estrutura sociourbana.
Posteriormente, diversas outras cidades se mostraram exemplares, e sem querer mencionar muitas delas, poderíamos citar a Paris da Belle Époque ou até mesmo o Rio de Janeiro em tempos da Bossa Nova. Claro que, tal como Atenas ou Roma da Antiguidade, a capital francesa e a urbe carioca tinham suas contradições, possuíam seus conflitos, mas também se notabilizaram por expressarem uma grande fé na capacidade humana, na criação de oportunidades, refletidas em imagens contagiantes capazes de fazer acreditar que tal bonança seria duradoura, senão eterna.
Como se sabe, a despeito de serem atualmente grandes e admirados destinos turísticos – Paris é a cidade mais visitada do mundo e o Rio a que mais recebe turistas no Brasil – ambas possuem grandes áreas de conflitos sociais, como são os subúrbios parisienses ocupados por imigrantes, a maioria do norte da África, e, no caso carioca, as favelas, hoje chamadas de comunidades numa tentativa de reprimir a estigmatização que marcou, ou ainda marca, tais áreas.
E para não estendermos muito a questão, ainda se pode citar o caso de Barcelona, sempre lembrada, nas últimas décadas, em diversos parâmetros, como uma das melhores cidades do mundo para se viver e também para se visitar. Entretanto, a própria população barcelonesa gosta de ressaltar que a cidade viveu tempos nefastos e que a virada se deu após a realização de dois grandes eventos, a Exposição Universal de 1929 e as Olimpíadas de 1992.
Enfim, o fato é que com todos seus problemas, a cidade ainda é, como afirma, entre outros, o economista norte-americano Edward Glaeser, o melhor lugar para o desenvolvimento humano, seja ele individual ou coletivo.
E mesmo num lugar como o Brasil, notável pelos seus altos índices de desigualdade social, temos que reconhecer que nossas cidades vêm se aprimorando, dando cada vez mais oportunidades para a melhoria da qualidade de vida da população. Ainda que o processo seja mais lento do que o desejável, não se pode negar que vamos melhorando pouco a pouco.
Mesmo com os enormes desafios, como é o caso do saneamento e da segurança pública, entre outros temais centrais, é certo que diversos indicadores demonstram o gradual desenvolvimento na transformação de vida da população urbana brasileira.
Com suas séries históricas anuais, pesquisas como o Ranking Connected Smart Cities (“que avalia as cidades brasileiras sobre a ótica do desenvolvimento inteligente, sustentável, humano e conectado”) ou Melhores Cidades para Fazer Negócios, ambas divulgadas pela consultoria Urban Systems, nos trazem dados que mostram como vários municípios vêm consolidando diversas estratégias para galgar investimentos e dar oportunidades a suas populações urbanas.
No Ranking Connected Smart Cities, por exemplo, são compilados múltiplos indicadores, que vão desde “crescimento no número de empregos” e de “empresas”, passando por “leitos por mil habitantes”, bem como “operadoras de fibra ótica” ou “bilhete eletrônico no transporte público”, ou seja, é possível avaliar em diversas frentes quais esforços as cidades empenham para se tornarem ambientes cada vez melhores para seus cidadãos.
E no caso do Espírito Santo, cabe destacar a capital Vitória em 7º lugar, Vila Velha em 33º, Cachoeiro de Itapemirim em 37º e Serra em 89º na pesquisa Ranking Connected Smart Cities, enquanto que em Melhores Cidades para Fazer Negócios, no setor Comércio, Serra em 28º lugar aparece à frente de Vitória, que ocupa a 31º posição. Já no segmento Serviços, a Capital ocupa um honroso 6º lugar.
Há ainda os segmentos Mercado Imobiliário, Educação, Indústria e Agropecuária. Cabe também mencionar que tais pesquisam recolhem dados de várias fontes, como o IBGE, o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) ou da Anatel. Os dados compilados são muitos e não caberiam aqui, mas a visão geral é de há muito trabalho sendo realizado e os resultados vão aparecendo.
Por fim, nunca é demais ressaltar que, apesar dos desafios, a cidade somos nós, isto é, nos pertence. Portanto, cada indivíduo tem papel na transformação deste espaço em que vivemos. Que sejamos perseverantes para construí-la com dignidade e justiça!