“Depois da primeira queda, o homem, entregue a si mesmo, é dominado pelo pecado. O primeiro crime é causado pela inveja. O mal generaliza-se numa corrupção que parece irremediável. Sobrevém o dilúvio. Depois do dilúvio entra em vigor a primeira aliança entre Deus e os homens. A humanidade salva das águas deve demonstrar sua fidelidade a Deus pela observância dos mandamentos divinos” (Gênesis 9, 1-7)
Desde Eva, ao incitar Adão comer a maçã, o homem tem se mostrado tão astuto quanto arrogante em relação à natureza.
Sua astúcia lhe permitiu compreender e depois confrontar-se com a natureza, dominando o território onde ele e os seus se assentaram ao longo dos tempos. A arrogância lhe fez pensar que o domínio era total. Noé, talvez, tenha sido o primeiro a se dar conta do que é enfrentar a força do ambiente que nos rodeia.
Mas a história, como mostram os feitos do Império Romano com seus aquedutos, estradas, cidades, também revela a incrível capacidade que algumas civilizações tiveram em seu projeto de adequação ao território geográfico, muitas vezes em total sintonia com a natureza local. Às vezes, porém, bastava um rugido, um pequeno despertar, como o que ocorreu com o Vesúvio em Pompéia, para que ela deixasse claro quem é que manda aqui.
O fato é que fomos nos expandindo, conquistando de modo indelével outros espaços, outros continentes... e passo a passo impondo transformações aos locais ocupados.
O processo de ocupação territorial se dá tanto baseado em experiências pregressas quanto pelo método de “tentativa e erro”. Para uma quantidade de acertos, há outra de fracassos. Mas fomos avançando.
Como imaginar que uma cidade como Veneza, construída alguns séculos atrás, chegaria em sua plenitude subliminar aos dias atuais? Por outro lado, ninguém pensaria que Porto Alegre ficaria um dia submersa, tal como uma Atlântida, e em tão pouco tempo.
Porém, se em Porto Alegre a tragédia foi inédita, sabe-se que outras cidades gaúchas já tinham sofrido com enchentes recentes, tal como vem se dando, por exemplo, também em Petrópolis no Rio de Janeiro, só para ficarmos em apenas mais um lugar com situações catastróficas recorrentes causada por chuvas torrenciais.
E pelo jeito o fenômeno das enchentes já começa a se alastrar por outras partes do país, pois o Espírito Santo também teve cidades que foram arrasadas por tempestades, como se deu em Mimoso do Sul e Iconha.
É certo que a extensão do desastre ambiental no Rio Grande do Sul foi extremamente maior, atingindo não só a capital, mas também outras regiões, entre elas cidades como Gramado, Pelotas, Canoas, etc.
Muitas medidas já começam a ser adotadas para evitar que a temperatura do planeta continue a subir, como é o caso da substituição da matriz energética fóssil por outras renováveis. Mas também será necessário mudar a forma como o homem construiu suas cidades e talvez até mesmo onde decidiu implantá-las.
Nesse ponto, cabe ressaltar que todas as cidades precisam ter acesso à água doce, estando implantadas junto a rios, lagos ou lagoas. Existem cidades ribeirinhas, lacustres, além das litorâneas (mas nessas também sempre há um rio desaguando no mar). Mas é das chuvas que vêm a água que banha o lugar que vivemos, alimenta rios, lagos, lagoas, oceanos e a terra em que pisamos e plantamos. O problema é quando ela escasseia ou mesmo vem em excesso, tal como se viu agora.
Temos, então, uma ambígua situação, afinal as cidades se situam num interlúdio, isto é, tanto sobre as águas – em um nível acima ao dos rios, lagos ou mares – quanto abaixo delas – a chuva que vem do céu. O risco, como parece ocorrer agora (inclusive por causa do iminente derretimento das camadas de gelo), é a diminuição do espaço outrora idôneo para o habitat humano onde as cidades foram construídas.
Que a astúcia e a arrogância se transformem em inteligência e comedimento, e o homem reaprenda em ter a natureza com aliada durante sua passagem pelo universo.