“O Brazil não merece o Brasil / O Brazil tá matando o Brasil / Jereba, saci, caandrades, cunhãs, ariranha, aranha / Sertões, guimarães, bachianas, águas / Imarionaíma, ariraribóia / Na aura das mãos de jobim-açu / Uô, uô, uô” (“Querelas do Brasil”, Aldir Blanc e Maurício Tapajós)
O modernismo, apesar do seu parcial fracasso como projeto utópico, tinha justamente na utopia, com suas boas intenções, valores que se tornam hoje necessários e urgentes.
E o Brasil bem que tentou ser moderno. Na verdade, fomos modernos em algumas categorias, o que não é pouca coisa.
Na arquitetura e no urbanismo, por exemplo, com as construções de Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, entre outros. O Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, projetado por Affonso Reidy e Burle Marx é sempre uma obra a ser lembrada.
Já nas artes visuais, Amilcar de Castro é um nome emblemático, tanto quanto foi Tarsila do Amaral na fase inicial da nossa “transgressão” modernista.
E o que queriam os ideólogos modernos?
Historicamente o modernismo, segundo alguns autores, teve início em meados do século XVIII no âmbito das transformações tecnológicas, científicas e sociais da época, e que se convencionou chamar Revolução Industrial. A arte, como não poderia deixar de ser, afinal ela é espelho do seu tempo, também se viu afetada, de tal modo que se propôs a romper com os modelos convencionais e tradicionais adotados até então em seus diversos modos de expressão.
Contudo, a arte moderna tardou até tornar-se hegemônica, mesmo onde surgiu, o continente europeu. Aos poucos, porém, ela foi alcançando outros territórios, consolidando-se como uma expressão de grupos sociais dispostos a vivenciarem conquistas culturais de uma nova era, já marcada pelos avanços proporcionados pela ciência e tecnologia.
INCLUSÃO
Um aspecto que muitas vezes é pouco considerado historicamente no projeto artístico modernista é a ambição dos artistas e arquitetos de alcançarem toda a sociedade, isto é, não produzirem obras apenas para uma elite econômica e cultural, mas também para as classes proletárias.
Exemplo disso são os diversos objetos idealizados no âmbito da Bauhaus (a mítica escola de arte, arquitetura e design alemã, e que acabou fechada a partir da ascensão dos nazistas ao poder) ou o surgimento do pilotis, tal como proposto por Le Corbusier. A ideia era que o pilotis fosse um espaço público sob as edificações, destinado a ser ocupado por todo cidadão, fazendo da cidade um lugar definitivamente aberto e democrático.
É claro que tudo isso se tornou uma falácia, um sonho inalcançado. Hoje, as obras de arte modernas são acessíveis apenas a um seleto grupo de bilionários mundiais, quando não se encontram em museus, mas também valendo uns bons milhões de dólares. E o pilotis acabou sendo bloqueado por grades e, como vemos em muitos lugares, usado como estacionamento...
REAÇÕES
Contudo, o rompimento com o academicismo em prol de uma expressão vanguardista que remetesse ao futuro, abolindo os modelos culturais consagrados, proporcionou não só um estranhamento por boa parte da sociedade da época. Muitas das reações contrárias à expressividade modernista não eram apenas opinativas; eram agressivas, violentas, preconceituosas. Não se imaginava que haveria tanta repulsão ao novo.
Por outro lado, é errado supor que os modernistas rechaçavam o antigo. Picasso tinha tanta admiração pelo quadro “As meninas” (1656) de Diego Velázquez que produziu uma série com 58 pinturas! Já Lucio Costa, o maior nome do modernismo arquitetônico brasileiro, era funcionário do SPHAN (atual IPHAN, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Portanto, não há problema algum na convivência harmônica da tradição com a inovação, ao contrário do que pensam aqueles que se dizem “conservadores”, pois, neste caso, eles não só demonstram veementemente o desprezo pelo novo, como também atacam os que se sentem atraídos, sensibilizados, fascinados com todo frescor trazido pela modernização.
Qual o receio deles? Por que se mostram tão refratários, tão retrógrados com a diferença, com os diferentes?
Não percebem que o mundo mais plural se torna mais rico, trazendo-nos olhares diversos, até mesmo contraditórios em certas ocasiões, mas que só engrandecem a experiência humana.
No Brasil, considera-se que o modernismo teve início há 100 anos, com a Semana de Arte Moderna, ocorrida em São Paulo. Que aquele espírito transgressor inspire os brasileiros e possamos tolher a mediocridade que alguns querem nos impor a todo custo!