Publicado em 13 de outubro de 2022 às 14:41
SÃO PAULO - Na primeira semana da propaganda do segundo turno no rádio e na televisão, as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Jair Bolsonaro (PL) levaram ao horário eleitoral ataques que viralizaram antes nas redes sociais, em postagens feitas em perfis que não os oficiais dos candidatos.>
A prática teve roteiro semelhante entre bolsonaristas e petistas. Primeiro, os ataques foram publicados em sites não oficiais das campanhas e compartilhados nas redes sociais de simpatizantes. Dias depois de gerarem engajamento e picos de buscas no Google, os temas foram levados às propagandas oficiais.>
Questionadas pela reportagem, as campanhas dos dois presidenciáveis não responderam se houve ação orquestrada de publicações nas redes antes do uso no horário eleitoral. A assessoria de Bolsonaro afirmou que não comenta assuntos relacionados à campanha. O PT não respondeu até a publicação desta reportagem.>
Na TV, Bolsonaro, por exemplo, ligou a imagem de Lula à de presos. Antes, a partir de 3 de outubro, posts nas redes sociais relataram uma suposta vitória do petista entre eleitores que votam em cadeias do país.>
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Um vídeo com detentos supostamente cantando um jingle do ex-presidente foi compartilhado em redes sociais. Uma das postagens no Facebook teve mais de 6.000 compartilhamentos. Checagem da agência AFP revelou que o vídeo é de 2016 e que o áudio foi alterado. No original, não havia a música petista.>
Em 11 de outubro, a narrativa de que Lula foi o candidato preferido de bandidos chegou ao horário eleitoral. A propaganda do presidente na TV divulgou dados de sites regionais e relatórios de urnas de presídios, entre os quais o de Tremembé (SP), para dizer que o petista foi o mais votado entre detentos do país. Não foi apresentado, porém, um levantamento consolidado dos votos de todas as cadeias do Brasil.>
"Sabe onde Lula teve mais votos no primeiro turno das eleições? Nas cadeias e nos presídios", afirma a apresentadora na peça. A Constituição Federal prevê o direito ao voto para o preso sem sentença final. Somente a condenação criminal definitiva suspende os seus direitos políticos.>
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 220 locais de votação foram instalados em unidades prisionais, com mais de 12 mil votantes registrados em 2022. Nem todos eleitores, porém, são presos. Mesários e funcionários de estabelecimentos penais também estão registrados para votar nesses locais. Não há, então, como afirmar com precisão que candidato teve mais votos de detentos.>
Ao tentar reforçar a ligação de Lula com "bandidos", a propaganda bolsonarista diz que o adversário defendeu criminosos e atribui os supostos resultados das votações nos presídios a declarações do petista.>
A peça resgatou críticas à violência policial, feitas em 2019. "Não posso ver mais jovem de 14, 15 anos, assaltando e sendo violentado, assassinado pela polícia, às vezes inocente, ou às vezes porque roubou um celular", disse o ex-presidente.>
A resposta de simpatizantes petistas veio nas redes sociais dias depois, com a publicação de um vídeo com o título "os maiores assassinos do Brasil apoiam Bolsonaro". Nele, aparecem o goleiro Bruno, o ator Guilherme de Pádua e a cantora e ex-deputada federal Flordelis, apontados como eleitores do presidente.>
O conteúdo não foi postado nas plataformas oficiais de Lula, mas a campanha petista avalia se o fará nos próximos dias na internet, no rádio e na televisão. Não seria o primeiro caso de migração de temas viralizados nas redes sociais para o horário eleitoral do PT. No segundo turno, a campanha usou tática semelhante à do adversário para atingir o presidente em temas caros a ele, como a pauta de costumes.>
Nos ataques mais agressivos até agora, levaram à TV falas antigas de Bolsonaro sobre ter discutido com ex-esposa o aborto de um dos filhos e outra em que relatou quase ter comido carne humana.>
"Eu queria ver o índio sendo cozinhado. Daí o cara falou: 'Se for, tem que comer'. Eu falei: 'Eu como!'. [Mas] como a comitiva não quis ir, porque tinha que comer o índio, não queriam me levar sozinho lá", afirmou o então deputado federal, em 2016, numa entrevista ao jornal americano The New York Times.>
O assunto viralizou nas redes sociais a partir de 4 de outubro. Buscas no Google para o termo "Bolsonaro canibal" atingiram o topo em 5 de outubro. Dois dias depois, na sexta-feira (7), na estreia da propaganda eleitoral do segundo turno, o PT exibiu uma peça com o vídeo na televisão.>
Para o sociólogo Marco Aurélio Ruediger, diretor de Análise de Políticas Públicas da FGV, a linguagem das redes sociais, mais emocional, tomou conta das campanhas. "Um certo esgoto das redes acabou migrando para a TV", afirma. "O que vale é o emocional, não há muito espaço para o debate de ideias.">
O ponto de inflexão, para ele, foi a eleição de 2018, quando Bolsonaro, com tempo escasso de televisão no primeiro turno --seis segundos por dia--, venceu o pleito, com estratégia agressiva na internet.>
Profissionais das campanhas dos candidatos em 2022 defendem que os ataques que tiverem maior engajamento nas redes sociais precisam chegar à televisão, mídia de maior penetração no Brasil.>
Apesar da evolução exponencial do acesso à internet, o país ainda tem apagões. Segundo o IBGE, em 2019 os desconectados eram quase 40 milhões. Dados mais recentes, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, apontaram 35 milhões sem acesso.>
É nessa franja de eleitores, de classes C, D e E, que a televisão ainda reina. Cerca de 70% do público que assistiu às emissoras abertas em 2021 estão nessas classes sociais, segundo o Ibope Kantar Media.>
Nas campanhas, há a ideia de que a veiculação na TV também reforça o assunto em públicos que já haviam sido atingidos pelo conteúdo em outras mídias, como WhatsApp e outras redes sociais.>
A propaganda política nos veículos de comunicação é financiada com dinheiro público, por meio de verbas do Fundo Eleitoral. Além disso, as emissoras recebem compensações fiscais como ressarcimento pelo espaço cedido. Em 2022, a Receita prevê ressarcimento de R$ 737 milhões às empresas de rádio e TV.>
A veiculação da propaganda é responsabilidade do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que julga pedidos de direito de resposta e retirada de conteúdos. A corte não faz análise prévia das peças veiculadas.>
Na última semana, o tribunal retirou do ar o vídeo da campanha petista em que foi exibida fala editada de Bolsonaro sobre quase ter comido carne humana. Na decisão liminar, foi aceita a acusação de que houve alteração sensível do sentido original da entrevista.>
Do outro lado, petistas também conseguiram retirar propagandas do presidente depois de elas entrarem no ar. "A velocidade da campanha é muito intensa. A Justiça está sempre atrás ao atuar", afirma o advogado José Paes Neto, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político.>
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