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Chuva no ES

As águas não são mais apenas de março, são de todo o verão

É importante que a população se conscientize do papel individual de cada um, adotando novas atitudes comportamentais que visem um mundo mais sustentável para nossos filhos

Publicado em 05 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

05 mar 2020 às 05:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Bairro Vila Rica, em Viana, divisa com Cariacica Crédito: Fernando Madeira
“São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração” (Águas de Março, Tom Jobim)
O mestre Jobim sabia das coisas, isto é, de que em março se chove bastante. Mas, talvez se estivesse vivo, ele teria que lançar nova canção falando das águas que caem durante todo o verão, tanto na sua querida cidade, o Rio de Janeiro, quanto em toda a Região Sudeste, como vimos a pouco em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.
Não obstante, em março, reconhecendo-se a sua importância para a existência da vida no planeta, se comemora o Dia Mundial da Água.
Estamos, portanto, diante de uma contradição assaz: a água que veio destruindo tudo por onde passou é a mesma que permite que possamos viver, ao ponto de sermos compostos majoritariamente por ela, afinal nosso corpo é feito por mais de 70% de água! Mas, tanto quanto nosso corpo, o próprio planeta é feito na sua maioria de água, ainda que boa parte dela seja de água salgada dos oceanos, que não é adequada para o consumo (de qualquer modo, os oceanos são abrigos de vida, fundamentais para o equilíbrio do planeta).
Ainda assim, a água doce produzida pela natureza seria suficiente para atender a população mundial, caso sua coleta, tratamento, distribuição e reúso fossem feitos de modo correto, sem desperdício, nas diversas etapas de todos os processos que envolvem a atividade humana.
O fato é que sobra água para alguns, enquanto falta para muitos outros. Há até quem argumente que a água pode ser responsável por futuras guerras, tal como já ocorreu com o petróleo, por exemplo, caso se mantenha o modelo desigual de acesso a ela, na qual sua escassez para diversos povos possa provocar o extermínio daquelas populações. No mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dificuldade de acesso à água potável atinge mais de dois bilhões de pessoas. Trata-se de uma tragédia global.
É o caso mesmo do Brasil, o país com o maior manancial de água doce do mundo, mas onde falta água para uma enorme faixa da população em todos os territórios, em todas as cidades. E, como se viu agora, toda a água que veio com a chuva foi desperdiçada, tornou-se imprópria para o consumo.
Se as crianças que habitam as regiões economicamente menos favorecidas são as mais atingidas pela escassez da água, a esperança do mundo está de fato nelas, isto é, as futuras gerações é que devem mudar o comportamento em relação ao consumo de água para que a mesma possa ser melhor distribuída entre toda a população.
Muitas ações educativas atuais visam à mudança comportamental, de tal modo que a média de gasto diário com água seja reduzido gradativamente. Enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) considera que 110 litros diários de água é suficiente para o consumo humano, no Brasil gasta-se em média 154 litros diariamente por cada pessoa.
O setor industrial, por meio de processos de menor impacto ambiental, já vem adotando mudanças em suas várias etapas produtivas visando a diminuir o gasto d’água, que inclui seu reúso.
As novas edificações urbanas, até por força de novas legislações, já vêm incorporando sistemas de reúso e que consumam menor quantidade de água (como no caso das descargas sanitárias).
Mas é importante que a população se conscientize do papel individual de cada um, adotando novas atitudes comportamentais que visem um mundo mais sustentável para nossos filhos. Já se foi o tempo de lavar calçada com mangueira jorrando água tratada; a moda agora é lavar o cabelo com shampoo a seco (uma, entre muitas, novidade da indústria de cosmético), algo rápido e prático. Com a palavra, as mulheres, afinal março também é o mês delas!

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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