Uma matéria recente do jornal Global Times revelou que a economia chinesa se recuperou de um desempenho de 2,3% em 2020 para 8,1% de crescimento em 2021. Tal fenômeno também aconteceu em outros países, guardadas as devidas proporções, sendo que muitos não conseguirão manter o ritmo da recuperação. A nova onda pandêmica provocada pela variante Ômicron acendeu o alerta global, apesar dos avanços das vacinações.
O jornal The New York Times, de 17 de janeiro de 2022, revelou a preocupação da indústria de transformação norte-americana com um possível choque de oferta nas cadeias globais de suprimentos, caso a China venha a impor novas medidas restritivas domésticas para combater a pandemia de Covid-19. Estresses nas cadeias de fornecimentos impactaram no índice de preços ao consumidor nos EUA, uma inflação de 7% em 2021.
Segundo ponderou a CNN Brasil, em matéria do dia 13 de outubro de 2021, “o pesadelo da cadeia de suprimentos está aumentando os preços para os consumidores e desacelerando a recuperação econômica global”. A firma Moody’s Analytics alertou então que as interrupções nas cadeias de suprimentos globais ficariam piores antes de melhorar. As delicadas cadeias de abastecimento do mundo já estavam enfrentando um estresse extremo.
No Brasil, deveremos enfrentar os efeitos inflacionários combinados com uma recessão. O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), para o mês de dezembro de 2021, revelou que ainda ocorrerão repasses de preços nos próximos momentos. O IGP-M registrou avanço de 17,78% em doze meses, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) subiu 20,57% no mesmo período e o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) cresceu 9,32% em uma economia que estagnou com um desemprego alto.
O relatório de mercado Focus, do Banco Central do Brasil, por sua vez, já começou a retratar as expectativas de queda de desempenho da economia a partir de dosagens aplicadas de apertos monetários. Uma economia que pratica taxas básicas de juros bem acima do seu crescimento caracteriza-se por estruturar desigualdades sociais extremas. O peso da variação dos preços administrados na projeção da inflação oficial merece reflexão do ponto de vista de um mercado de trabalho precário.
Em um instigante livro de memórias, “Contando vantagem” (Record, 2000), o célebre economista John Kenneth Galbraith (1908-2006), professor emérito da Universidade de Harvard, contou sua experiência no New Deal do presidente Franklin D. Roosevelt (1882-1945). A Grande Depressão marcou profundamente as crenças de uma geração nos EUA e em outros países. De acordo com Galbraith, ainda assim a sabedoria convencional resistiu a mudanças de perspectivas.
A vitória eleitoral de Roosevelt, em 1932, não preocupava os conservadores, pois havia a promessa de equilibrar o orçamento público federal. Acreditava-se então, em Washington, que não era preciso fazer nada além de restaurar a confiança no sistema econômico. O New Deal precisou ir bem além disso. Segundo Galbraith, “de auxílio ainda mais imediato para os negócios foi a Administração da Recuperação Nacional, NRA, que reuniu empresas a fim de redigir os famosos códigos que permitiam a fixação de preços e uma interrupção no mortal corte de preços e salários que foi um dos claros efeitos adversos da Depressão”.
Um fato curioso narrado diz respeito à perplexidade geral em relação à resistência do empresariado em aceitar “a ação pública que tinha o efeito de estabilizar e aumentar seu próprio retorno financeiro”. A constituição da Junta de Planejamento dos Recursos Nacionais feria o ethos empresarial profundamente. Pode-se até dizer que a entrada dos EUA na guerra, após o bombardeio de Pearl Harbor, em 1941, ajudou a reduzir as tensões políticas domésticas. No entanto, conforme ponderou o professor, batalhas eram travadas pela administração Roosevelt em duas frentes.
Em relação ao “milagre da produção americana”, Galbraith disse que ele foi a resposta de uma “economia subutilizada e subempregada às maravilhas de uma demanda ilimitada por seus produtos”. O Escritório de Administração de Preços e o Tesouro, representaram, do ponto de vista político, “os órgãos essencialmente importantes durante a guerra”. O racionamento e o controle de qualidade dos produtos também foram estabelecidos na guerra.
A pandemia ainda não terminou no mundo. Nesse sentido, uma efetiva recuperação econômica não se realizará apenas a partir do restabelecimento da confiança dos agentes econômicos. Fala-se muito na necessidade de um New Deal global, de viés “verde”, sustentável em termos de desenvolvimento. Essa mudança de patamar civilizatório dificilmente se realizará a partir das estruturas produtivas existentes.
O mais novo relatório da Oxfam, “A desigualdade mata”, trouxe informações relevantes para o debate público nas vésperas do Fórum Econômico Mundial de 2022. Desde o início da pandemia, os dez homens mais ricos do mundo dobraram as suas fortunas, enquanto mais de 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza. Em síntese, o “custo da profunda desigualdade que enfrentamos é pago em vidas humanas”.