O jornal Valor Econômico publicou, no dia 25 de agosto, uma matéria assinada por Lucianne Carneiro sobre um estudo realizado por Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre). Esse estudo apontou para o crescimento da pobreza entre o primeiro trimestre de 2019 e janeiro de 2021 no Brasil.
Em síntese, o percentual da população pobre aumentou em 24 das 27 unidades da federação brasileira e a expectativa entre economistas é que os níveis de pobreza se mantenham acima do verificado antes da pandemia de Covid-19. Segundo consta na matéria, “a fatia de população pobre na média do Brasil como um todo passou de 25,2% no primeiro trimestre de 2019 para 29,5% em janeiro de 2021”.
Houve crescimento da pobreza no Espírito Santo, de 22,4% para 27,6% no período de referência do estudo. As três únicas unidades federativas que não tiveram expansão da pobreza já tinham participação acima de 30% de pobres: Acre (46,4%), Pará (45,9%) e Tocantins (35,7%).
A medição da pobreza seguiu os parâmetros do Banco Mundial e a base de dados usada no estudo foi a do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo apontou a matéria, “o trabalho mostra ainda que ocorreu expansão da parcela da população em pobreza extrema em 18 das 27 unidades da federação, considerando renda per capita de US$ 1,90 por dia”.
Durante a pandemia, a pobreza está ligada à distribuição e ao valor do auxílio emergencial em cada período. Conforme ponderou o pesquisador Daniel Duque sobre a pobreza, “tudo leva a crer que ela vai se estabilizar numa situação pior que antes da pandemia”. Duque afirmou ainda que o “mercado de trabalho segue fragilizado e a inflação também tem contribuído para puxar os rendimentos para baixo”.
Lançado em junho, o relatório global anual sobre riqueza do Credit Suisse destacou algo que é estrutural e histórico no Brasil. Na lista de países analisados, o Brasil encontra-se, invariavelmente, desde o ano 2000, em destaque na concentração de riquezas no topo. Em 2020, a concentração de riqueza no 1% do topo foi de 49,6%. Nos EUA, por exemplo, esse número foi de 35,3%, na Alemanha, 29,1% e na França, por sua vez, 22,1% em 2020.
De acordo com o respectivo relatório, “a desigualdade de riqueza é alta na América Latina, especialmente no Brasil, que possui um dos maiores níveis de desigualdade no mundo”. Desigualdade de riqueza esta que, medida pelo índice de Gini, avançou em 2020. A pandemia e seus efeitos, portanto, não estão sendo sentidos de forma equitativa no Brasil.
Com uma carga tributária regressiva, que privilegia a estrutural concentração de riquezas no topo, dificilmente o Brasil se tornará um país mais próspero, democrático e desenvolvido. A Emenda Constitucional 95/2016, que versa sobre os gastos primários, pressiona pela redução dos gastos públicos sociais necessários quando eles mais são necessários para a maioria da população.
Em uma publicação no Blog do Ibre, no dia 4 de agosto, o pesquisador Daniel Duque mostrou que o Brasil ingressou, em abril de 2021, em um território de recorde histórico no “índice de mal-estar”, que combina desemprego e inflação. Para os próximos meses, a “expectativa é de novas altas da inflação e de manutenção do elevado desemprego, devido à maior taxa de participação”. Nesse sentido, as perspectivas para os próximos meses, infelizmente, são desfavoráveis.