A discussão sobre a semana de escala laboral 6x1 revela o atraso do debate sobre a jornada de trabalho no Brasil. Uma matéria publicada no UOL, em 14 de novembro, assinada por Mariana Desidério, trouxe informações relevantes sobre a semana com apenas quatro dias de trabalho (escala de 4x3). A matéria utilizou o relatório do projeto piloto feito em parceria entre a Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP) e a 4 Day Week Global, entre outras entidades.
Sobre o teste do modelo no Brasil, vinte e uma empresas testaram a semana de quatro dias de trabalho durante seis meses sem redução salarial. Em síntese, “os dados do projeto piloto mostram que 72,8% dos trabalhadores participantes relataram uma redução na exaustão frequente, enquanto 71,3% relataram mais energia para família e amigos”. A melhoria na criatividade e inovação foi relatada por 80,7%, enquanto 52,6% perceberam melhorias na capacidade de cumprir prazos.
“Lideranças relataram melhora na produtividade”, destacou a matéria. Ainda segundo a matéria, “houve também percepção de melhor qualidade no trabalho e redução nas faltas, além de ganhos na retenção de talentos”. O desafio foi a manutenção da produtividade nas quintas-feiras. A garantia da cobertura durante toda a semana foi desafiadora, “principalmente em setores que requerem cobertura contínua, como atendimento ao cliente”.
A BBC News Brasil, por sua vez, publicou, também em 14 de novembro, uma entrevista com o economista Pedro Gomes, professor da Universidade de Londres e que foi o responsável por coordenar o projeto piloto da semana de quatro dias de trabalho em Portugal. “Considero que já está na hora de terminar o 6x1 para dar espaço, de forma prudente e bem estudada, para a semana de quatro dias”, afirmou Gomes.
De acordo com o acadêmico, “a semana de quatro dias é uma melhor forma de organizar a economia pelo impacto positivo que pode trazer. Isso envolve reorganizar a economia e o trabalho nas empresas”. Afinal, trata-se de uma crença conservadora equivocada o argumento de que a economia iria colapsar com esse novo modelo de escala semanal de trabalho.
Para o professor, “pessoas sem tempo livre não são boas consumidoras”. Mais tempo livre estimula o consumo local ou regional. Ele citou exemplos, como é o caso do turismo interno em alguns países. Gomes ponderou que “a escala de 6x1 está mais ligada ao século 19 do que a uma economia tão forte do século 21”. A economia criativa, em suas diversas áreas, tem muito a ganhar com a adoção gradual da escala 4x3.
Sabemos que a precarização laboral estrutural cria um terreno fértil para novos tipos de aventureiros políticos e de fascismos. Nesse sentido, o acadêmico afirmou que “um dos maiores riscos para as economias modernas são os movimentos populistas, que ganham força pelo descontentamento das pessoas com a economia”. No meu artigo anterior publicado neste espaço, no dia 11 de novembro, busquei tratar dessa questão.
Conforme descreveu o professor Darcy Ribeiro, em ‘O povo brasileiro’ (1995), a nossa formação econômica esteve associada aos “moinhos de gastar gente”. A exploração predatória da natureza também integrou esse processo histórico de ocupação do território. Precisamos, portanto, de mudanças estruturais planejadas de rumos para além de pactos conservadores feitos no andar de cima.