Escutei bem recentemente uma velha piada atribuída ao falecido economista Simon Kuznets. De acordo com o famoso economista, existiriam apenas quatro tipos de países: os desenvolvidos, os subdesenvolvidos, o Japão e a Argentina. Farei alguns comentários sobre o caso argentino, tendo em vista a sua importância na América do Sul e a sua relação comercial com o Brasil.
Para refletir sobre esse complexo assunto, reproduzirei alguns argumentos que utilizei em um artigo publicado com o cientista político argentino Eduardo Rivas no Diário 16 Plus, em 17 de agosto de 2019. Sob o título de “La larga agonía argentina”, trouxemos elementos históricos para buscar explicar os problemas que então se manifestavam para o início do governo de Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner.
Nostalgias liberais e peronistas se alternam historicamente no imaginário social desde meados do século 20. As crises continuam e as opiniões polarizam a Argentina. Liberais querem um país mais integrado com as finanças internacionais e que utilize as suas vantagens comparativas naturais para se inserir no comércio global. Esta seria, basicamente, uma estratégia de inserção pré-1930. Os peronistas preferem o Estado intervencionista, que seja capaz de distribuir receitas e representar algo próximo a um governo trabalhista.
Algum grau de paralisação econômica nos parecia então inevitável para o governo de Fernández e a pandemia de Covid-19 aprofundou os dramas sociais e econômicos. Entretanto, não se deve esquecer que o processo de declínio argentino foi exacerbado pelo Processo de Reorganização Nacional, na ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983.
Para Lucas Llach e Pablo Gerchunoff, autores que citamos no artigo, "no caso da Argentina, a relação entre abertura comercial e equidade foi determinada pelas características genéticas da estrutura econômica" porque "a dotação de fatores fez da Argentina um país com vantagens comparativas na produção de alimentos e um importador líquido de produtos manufaturados". Esses autores avaliaram, a partir de fatos estilizados, as crises da economia argentina entre 1880 e 2002.
No livro “Entre la equidad y el crecimiento” (2004), Llach e Gerchunoff argumentaram que “antes que a globalização tivesse um nome, a Argentina ficou à mercê de seus vendavais: a desindustrialização devido à concorrência externa no final da década de 1970, a crise da dívida na década de 1980 e um novo fluxo e refluxo de capital na década de 1990”. A redemocratização na década de 1980 herdaria muitas dificuldades, assim como uma nova crise seria enfrentada a partir de dezembro de 2001.
As condições gerais no Brasil e no México foram relativamente mais favoráveis à industrialização substitutiva de importações. O menor tamanho relativo do mercado interno foi um obstáculo à industrialização argentina. Ainda que tenha sido considerada uma industrialização orientada para a exportação, a força política dos setores primários exportadores tem prevalecido em vários momentos históricos.
Desde 1976, a semiestagnação econômica da Argentina convive com uma distribuição flutuante e crescente das desigualdades internas. Diferentes tipos de endividamento ocorreram na Argentina ao longo do século 20. Problemas fiscais e as suas manifestações inflacionárias estiveram ligados ao processo de substituição de importações ou à bicicleta financeira da nostalgia liberal. Tanto a nostalgia liberal quanto a peronista têm o potencial de aumentar o endividamento público e privado. As depressões repentinas da moeda fizeram parte dos contextos dessas duas nostalgias.
Nos questionamos então, em agosto de 2019, que, em um processo de mais de trinta anos de reprimarização das exportações argentinas, seria preciso saber quais eram as reais margens de manobra do governo de Fernández, que considerávamos muito limitadas. Ademais, o peronismo já havia se mostrado não homogêneo. O governo peronista de Carlos Menem, por exemplo, na década de 1990, foi estruturalmente neoliberal e privatizante.
Sua lei de conversibilidade cambial fixou a paridade do peso argentino em relação ao dólar norte-americano a uma taxa de um peso para cada dólar. Tal política impôs uma rígida disciplina fiscal, limitando o déficit público e proibindo o financiamento do governo por meio da emissão de moeda nacional. A ideia era estabilizar a economia e conter a hiperinflação que havia assolado o país. Problemas não demoraram a emergir.
A paridade fixa com o dólar manteve o peso argentino sobrevalorizado, tornando as exportações argentinas menos competitivas e levando ao crescimento do déficit comercial. Houve, portanto, a necessidade de crescentes empréstimos externos para sustentar a paridade cambial. Entre o final de 2001 e 2002, o país enfrentou uma grande crise financeira, a corrida aos bancos e uma devastadora depressão econômica. O governo argentino não conseguiu honrar as suas obrigações de dívida em moeda estrangeira.
Para combater aquela crise, o governo liberal de Fernando de la Rúa rompeu com a política de conversibilidade cambial, em dezembro de 2001, permitindo a desvalorização do peso argentino. Essa medida ajudou a reverter a recessão e a impulsionar as exportações posteriormente. Aquela crise deixou, entretanto, um perverso legado de desemprego, pobreza e instabilidade econômica que afetou profundamente a sociedade argentina. Esse drama persiste no tempo presente.