Há cidades que conhecemos pelos mapas. Outras, pelas lembranças. Vitória, para mim, é uma coleção de pequenos lugares que, por alguma razão, ganharam um espaço definitivo na minha vida. O urbanista Carlos Moreno, que foi quem concebeu a filosofia da cidade de 15 minutos, chamaria isso de topofilia, que significa o amor que desenvolvemos pelos lugares.
Começo por Jardim da Penha, onde moro hoje. Na esquina da minha casa há uma pitangueira, testemunha de um tempo em que o bairro era feito de trilhas, jardins e caminhos de pescadores. Moro na rua Jahira de Santos Rodrigues, uma ruazinha de mão única, calma, arborizada, quase um Bairro Peixoto escondido dentro de Jardim da Penha. Uma delícia.
A Praia do Canto é a minha infância. Percorri suas calçadas de bicicleta, minha brincadeira predileta. Conheço cada esquina. Hoje, meu refúgio é a rua Agrimensor Adolpho Oliveira, onde algumas casas resistem à transformação do bairro. Ali, ainda encontro um pouco da Praia do Canto que conheci menino.
Em Bento Ferreira, sou apaixonado pela rua Carlos Moreira Lima. Larga, arborizada, generosa. Lembra a Praia do Canto de quarenta anos atrás. Um bairro que ainda guarda uma bela promessa de futuro.
Jardim Camburi tem a Praça Nilze Mendes. Que maravilha! Uma praça cheia de vida, que transformou a maneira de ocupar o bairro. Jaime Lerner, o grande planejador de cidades paranaense, certamente reconheceria ali uma bela expressão de “acupuntura urbana”.
Na Mata da Praia, onde também morei, guardo um carinho especial pela pracinha Padre Alfonso Pastore. Quantas manhãs caminhei por ali, sentindo a brisa fresca, sem pressa alguma. Santa Lúcia tem a ladeira Mary Ubirajara. E ali, os edifícios Belle Vue e o Sur la Pierre, com uma implantação que considero das mais bonitas de Vitória. Já vendi três apartamentos naquele conjunto. Ao lado ficava o saudoso Praia Tênis. Ah, que saudade do Praia!
Na Enseada do Suá, confesso, sinto falta de ruas. São avenidas demais. Mas existe a pequena praia sob a Terceira Ponte, onde a memória me leva às brincadeiras na casa dos amigos Rodrigo Mazzei e Márcio Athanázio. Ainda passo por lá de bicicleta.
Na Ilha do Frade, amo a lagoa. Caminhar por ali pela manhã é um privilégio. Na Ilha do Boi, a Praia da Direita guarda meu primeiro encontro com o mar de Vitória. Eu vinha de Minas, depois de uma temporada em Salvador, onde conheci o mar na Praia do Portinho da Barra.
E quase me esqueço do Barro Vermelho! A rua José Luiz Gabeira, com seus generosos afastamentos e árvores, é uma preciosidade.
Vitória tem dessas coisas. Cada bairro oferece um motivo diferente para ser amado. Não necessariamente o mais caro, o mais moderno ou o mais famoso. Às vezes, basta uma árvore, uma calçada, uma praça ou uma lembrança de infância.
Tenho redescoberto Jardim da Penha caminhando. Ruas largas, sombra, comércio próximo, quase tudo a poucos minutos. Vitória poderia ser, cada vez mais, uma cidade de cinco minutos.
Mas confesso que o novo canal talvez mude minhas preferências nos próximos anos. Afinal, sou homem do mar. E poucas coisas me fazem tão feliz quanto encontrar um pedaço de Vitória onde a cidade termina e a água começa.
No Centro, ou na “Cidade” como os antigos diziam, eu recorro a Drummond, meu conterrâneo das Gerais: ”Caminho por uma rua que passa por muitos países, se não me veem, eu vejo e saúdo velhos amigos”, e essa rua em que passo para mim é a mais especial. Afirmo ser o próximo Hub cultural e boêmio. Me refiro às contíguas Nestor Gomes e Duque de Caxias, em franco processo de revitalização.
Vitória ao meu ver não é apenas o metro quadrado mais caro das capitais, e sim o metro quadrado mais bonito de todas as cidades de nosso imenso Brasil.
Esta é uma declaração de amor de um capixaba nascido em Belo Horizonte. Eu te amo, Vitória, e amo toda a sua gente e seus encantos!