Eu tenho uma ligação sentimental com o cooperativismo e, por isso, esta quarta-feira (23) é um dia especial para mim. Vou dar uma palestra na feira anual da Cooabriel, a Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel da Palha, minha cidade natal.
Além da felicidade de voltar às minhas origens e rever tanta gente querida, participar do evento tem um componente de gratidão. Devo boa parte da minha formação ao cooperativismo, pois estudei na Coopesg, Cooperativa Educacional de São Gabriel da Palha.
Mais que isso, sou testemunha do impacto das cooperativas agrícolas no desenvolvimento do país. Elas ajudam os associados a avolumarem sua produção, gerarem valor adicionado e alcançarem mercados e preços mais vantajosos, do que vender em pequenas quantidades para comerciantes locais.
É o caso da Cooabriel. Ela foi fundada em 13 de setembro de 1963, quatro meses após a emancipação de São Gabriel da Palha. Confunde-se, portanto, com a história e a evolução do município.
A cooperativa começou com a abertura de uma mercearia, para atender aos associados nas necessidades básicas. Depois passou a prestar serviços de armazenagem e comercialização de café. E seguiu evoluindo, até dar suporte à atividade cafeeira como um todo, incluindo a escolha da área de plantio, iniciativas para a melhoria da qualidade dos cafés produzidos, a busca por novos mercados e o incentivo à inovação e à sustentabilidade.
Dos 38 cooperados iniciais, a Cooabriel chegou a mais de 8.100 associados no final de 2024, com R$ 2,57 bilhões em faturamento bruto, contando com lojas agropecuárias, unidades de armazenagem, laboratório de análises, jardim clonal, fazenda experimental e uma marca de café torrado e moído, o Café Guardião, que tem sua própria indústria de torrefação.
E a cooperativa da minha cidade é apenas um exemplo da força do cooperativismo agrícola no Brasil. No final de abril, estive em Carambeí, onde almocei com o Geraldo Slob, presidente da Frísia, a primeira cooperativa de produção do Paraná e segunda do Brasil, que completa um século neste ano.
Fundada por colonos holandeses que precisavam escoar a produção de leite, queijo e manteiga naquele início de século XX, hoje a Frísia tem mais de mil cooperados e atua em grãos, lácteos, sementes, florestas, rações e proteína animal. Foi dona da marca Batavo e ainda a utiliza em alguns segmentos.
Também conheci a união das cooperativas da região, que produz 3 milhões de litros de leite por dia e é responsável por cerca de 50% do malte usado na produção de cerveja no Brasil.
O slogan da Frísia é “nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos”. A história e os números do cooperativismo agrícola no Brasil dão razão a esse slogan.
O Anuário Coop 2024, do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), aponta que, em 2023, o país tinha 1.179 cooperativas agrícolas, mais de um milhão de cooperados e 260 mil empregos diretos, gerando receitas de R$ 423,2 bilhões.
Num artigo recente, o professor Marcos Fava Neves enumerou as vantagens do cooperativismo aos produtores: "O acesso facilitado a insumos de qualidade e tecnologias avançadas, aumentando a produtividade e eficiência; comercialização mais eficiente dos produtos, garantindo melhores preços e sem depender de intermediários; assistência técnica especializada; redução de custos por meio de compras coletivas; e o fortalecimento das comunidades rurais, estimulando o desenvolvimento econômico e social, gerando emprego e renda”.
Em outras palavras, quando se fala de cooperativismo agrícola no Brasil, a união, realmente, faz a força.