Ser brasileiro também é estar acostumado a falar de aumento de preço, de dizer que uma mercadoria ou serviço está custando mais agora do que custava dias atrás. A inflação faz parte do cotidiano porque foi uma doença grave da economia brasileira por três décadas, um tempo em que um pacote de biscoitos tinha um preço de manhã e outro à tarde, com o funcionário do mercado remarcando o valor com uma maquininha. Temos uma economia estável desde 1994, mas, de vez em quando, a inflação volta. Estamos numa dessas fases novamente.
Quem compra sabe: em algumas regiões do Brasil, o preço do ovo branco aumentou 69% este ano. O café subiu 50% nos últimos 12 meses. A cesta básica, com os produtos mais necessários para as famílias, ficou 14% mais cara no ano passado.
É a inflação de alimentos, que está fazendo tanto mal às finanças das pessoas e afetando a popularidade do governo.
Uma das razões para isso é a combinação de mais dinheiro circulando na economia e questões sazonais de oferta de produtos. Os programas de transferência de renda do governo estão colocando mais dinheiro no bolso da população, então as pessoas estão comprando mais.
Ao mesmo tempo, a oferta de produtos está reduzida por questões de safra, impactada por eventos climáticos, entre outras razões. Há também no mundo um ciclo de alta no preço de commodities — como trigo, milho e soja. O resultado é que os preços sobem — e podem se manter altos por mais algum tempo.
Transferência de renda é uma política pública justa e fundamental no Brasil. Mas é importante o governo ter responsabilidade fiscal, não gastar além do que arrecada, como faz hoje, senão acontece o que estamos vendo: as pessoas têm mais dinheiro, mas gastam mais por causa da inflação. Nesse ciclo ninguém ganha.
O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas também está sujeito às oscilações dos preços dos produtos mais básicos. É um movimento internacional. Vamos pegar o exemplo da carne. Nos Estados Unidos há um fenômeno interessante: o tamanho dos rebanhos está caindo, porque muitos produtores estão liquidando seus estoques. Eles estão fazendo isso porque seus filhos não querem ser fazendeiros. É uma questão geracional. Assim, o preço da carne sobe.
No Brasil vemos o movimento contrário ao dos Estados Unidos: estamos num momento de reconhecimento da importância do agro, as novas gerações têm orgulho da atividade. Já vemos gente usando botina na Faria Lima, não só na roça (usar na roça é fácil; quero ver usar na Faria Lima).
O agronegócio brasileiro tem apenas 70 anos de desenvolvimento e já é um dos mais avançados do mundo, uma área da economia onde o Brasil está na ponta. Outro dia, conversei com o Guilherme Nastari, da consultoria Datagro, especialista no assunto. Ele citou alguns setores que se destacam e têm muitas oportunidades.
A produtividade brasileira em açúcar e etanol, por exemplo, é considerada de primeira linha. O Brasil exporta tecnologia de equipamentos e de manejo da cana-de-açúcar. Há um círculo virtuoso nessa área, em que os produtores ganham mais, por isso podem investir mais e ganhar ainda mais depois.
Há também um processo de profissionalização na pecuária. O Brasil já é um dos líderes mundiais em exportação de carne, mas ainda tem muito a desenvolver e espaço para crescer. No ano passado, a B3 adotou um novo indicador que dá o lastro paras os contratos futuros de boi gordo. A média de negociação diária subiu de 3.000 a 4.500 para mais 11.000 contratos. Isso dá mais liquidez e consolida um mercado importante para o agro e para o Brasil se desenvolverem.