Publicado em 13 de março de 2025 às 13:43
Era um Brasil completamente diferente aquele da virada dos anos 1980 para os anos 1990. Havia um vilão que não só assustava a todos como, feito monstro faminto, devorava dia após dia fatias polpudas do dinheiro das pessoas — era a hiperinflação que minava o poder de compra do cidadão.>
Em 1990, quando o país vivia a iminência do fim do governo José Sarney para a posse do presidente Fernando Collor — o primeiro eleito por voto direto desde o golpe de 1964 —, economistas debatiam intensamente qual seria a solução para domar esse dragão descontrolado que bagunçava a economia.>
Conforme divulgou a Folha de S.Paulo na edição de 13 de março daquele ano, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) previa que o mês fecharia com inflação de 89,6% (o índice de março de 1990 acabou fechando em 82,39%, a maior variação mensal do IPCA já registrada pelo IBGE).>
"Na opinião dos economistas do órgão, o novo governo terá de intervir contra a alta", escreveu o jornal. Algo já estava sendo costurado nos bastidores.>
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No dia seguinte, a manchete da Folha foi: "bancos fechados à espera do pacote".>
Sim, antes mesmo de o novo presidente assumir o cargo, sua equipe econômica já havia costurado com o Planalto uma operação que envolvia o feriado bancário de três dias — na prática, em tempos de sistema financeiro muito mais analógico do que eletrônico, essa medida suspendia a economia do país por 72 horas. No dia 16, o jornal dizia que o novo presidente empossado preparava "choque" com "congelamento e índices prefixados".>
Os detalhes mesmo da política que ficou conhecida como "confisco da poupança" só sairiam na próxima edição, datada de 17 de março. Oficialmente, o confisco foi chamado tecnicamente de "bloqueio da liquidez", parte integrante e fundamental do "Plano Brasil Novo", popularmente chamado de Plano Collor.>
"Choque do Plano Collor é o maior de toda a história", manchetou o jornal, informando que os saques estavam limitados a 50 mil cruzeiros — moeda que entrava em vigor, substituindo o cruzado novo. Pela cotação da época, isso equivalia a cerca de 1,3 mil dólares. >
Na prática, todo e qualquer depósito existente em banco ou aplicado em contas de poupança, superior a esse limite, deixava de ficar disponível para seus donos. O dinheiro circulante foi abruptamente congelado, retirado de circulação.>
A medida retinha os valores por 18 meses e previa a liberação então em doze parcelas, com correção monetária e juros de 6% ao ano.>
Além disso, promoveu um amplo congelamento de preços de diversos produtos e serviços.>
Assim, no contexto, o pacote era extremo porque precisava combater um cenário extremo de hiperinflação.>
"Quem não viveu esse período não tem dimensão do que era", diz à BBC News Brasil o economista Odilon Guedes Pinto Júnior, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e membro do Conselho Regional de Economia de São Paulo. >
O índice de inflação anual de 1989 chegou muito perto de 1.800%. Nas gôndolas dos supermercados, os preços eram remarcados diariamente.>
"A inflação era inercial, havia um processo automático de realimentação dos preços. Era uma coisa completamente descontrolada", lembra ele.>
,O pacote econômico que inaugurou o governo Collor foi anunciado no dia seguinte à posse do novo presidente, em 16 de março de 1990, em uma conturbada coletiva à impressa capitaneada pela economista Zélia Cardoso de Mello, então ministra da Fazenda. "São medidas duras e profundas", disse ela.>
"O confisco foi mais uma intempestividade do que uma ideia", avalia à BBC News Brasil a economista Cristina Helena Pinto de Mello, professora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). >
Ela explica que antigamente era comum que governos se financiassem vendendo títulos para o Banco Central. Com o tempo, notou-se — não só no Brasil, mas mundialmente — que esse mecanismo gerava descontrole sobre a oferta monetária, desencadeando processos inflacionários.>
"Então proibimos essa forma direta de financiamento", explica. "A estratégia que acaba prevalecendo é o financiamento através do endividamento público: ou seja, o governo vende seus títulos para bancos comerciais, os bancos comerciais compram títulos do governo usando capitais de terceiros.">
Na prática, o dinheiro que cada um tem depositado no banco acaba sendo emprestado, dentro da lógica do mercado financeiro, para pessoas físicas, empresas e, claro, também para o governo.>
"Na época havia um volume muito grande de títulos em carteiras dos bancos comerciais", afirma Mello. "E os bancos comerciais estavam financiando fortemente os déficits do governo.">
Segundo a professora, quando os bancos perceberam "a fragilidade do setor público" e passaram a "exigir cada vez mais remunerações maiores em função do risco percebido", o governo passou a não "dar mais conta de pagar".>
Essa percepção, "diante do quadro" chamado por ela de "intempestivo", estava naquela transição de governo. "Ia haver [maior ainda] hiperinflação, de forma muito rápida. O governo entendeu que havia uma altnernativa: dizer para os bancos 'muito bem, eu devo, mas não vou pagar'", conta Mello.>
"Consequentemente, se o governo faz isso também coloca os bancos na situação de não poder devolver o dinheiro para seus correntistas. Então decretou-se feriado bancário e anunciou-se o que acabamos chamando de confisco", resume ela.>
Nas suas palavras, isso "foi um represamento dos ativos que estavam aplicados" porque "boa parte desse recursos tinham como destino o financiamento do governo, a compra de títulos da dívida pública".>
O dinheiro confiscado, em outras palavras, não estava nos bancos. "Estava aplicado, emprestado para o governo e também para outros agentes. E ninguém podia sacar em função da regra do novo governo", diz Mello.>
Havia racionalidade além da intempestividade, ensina a economista. "Era a ideia de que uma restrição da oferta de moeda iria apoiar o governo no combate à inflação", diz. >
"Porque se associava de moeda, a disponibilidade monetária, ao fator sancionador do processo inflacionário", teoriza. "[Desta forma,] o confisco apoiaria o governo no sentido de inibir o processo inflacionário por falta de disponibilidade monetária.">
"As pessoas não podiam comprar e quem quisesse vender teria de diminuir os preços. Essa era a ideia básica naquele momento. Então isso era o que tinha de estratégico", comenta. "Era a ideia de que os agregados monetários antecedem o processo inflacionário. Quanto mais moeda circulando, mais inflação.">
"A medida bloqueou todo o dinheiro que as pessoas tinham", sintetiza à BBC News Brasil a economista Juliana Inhasz, professora no Insper. >
"Como estávamos em um período de hiperinflação, os formuladores da política achavam que, ao fazer isso, estavam necessariamente reduzindo a circulação de recursos e, ao diminuir a demanda, conteriam a hiperinflação. A lógica foi essa.">
"A ideia do confisco do dinheiro era diminuir drasticamente a liquidez da economia, tirar grande parte do dinheiro de circulação e, assim, fazer cair a demanda e os preços voltarem a ser controlados", contextualiza o economista Pinto Júnior. "Só assim o governo poderia voltar a fazer política monetária fiscal. Porque com a inflação naquele ritmo, os instrumentos de política macroeconômica eram muito difíceis de serem aplicados.">
Para entender esse ponto, é preciso retroceder ao contexto histórico. "O Brasil vinha de um processo inflacionário com experiência de alguns planos econômicos heterodoxos que tinham fracassado", explica à BBC News Brasil a economista Ana Claudia Polato e Fava, professora na Universidade Federal do ABC (UFABC). >
"É importante contextualizar este cenário pois a liquidez monetária desta época é muito diferente de qualquer outro episódio contemporâneo", diz ela.>
"Este cenário inflacionário alinhado à crise de criatividade do setor financeiro gerou uma distorção nos diferentes agregados monetários. Agregados com liquidez plena, como a poupança e até mesmo a conta corrente com aplicação no overnight, eram remunerados para além do que deveriam ser por serem ativos líquidos. Isto acontecia porque a mega inflação da época fazia com que agregados monetários líquidos não fossem retidos a menos que fossem recompensados pela perda inflacionária", afirma a professora.>
Eram tempos em que as empresas tinham setores financeiros inchados em comparação aos setores produtivos. "Tinha-se que sempre pensar no melhor dia de fazer uma aplicação ou um pagamento", diz Fava.>
É mais ou menos como se uma pessoa que trabalhe em uma profissão que nada tem a ver com o mercado financeiro se preocupasse prioritariamente com a maneira certa de investir o dinheiro ganho do que com a sua expertise em si.>
"A ideia de confiscar a poupança acima de 50 mil vinha desta linha de pensamento que o excesso de liquidez produzia a inflação", contextualiza a economista. "O confisco provocaria uma redução da demanda que levaria a redução da inflação.">
A iniciativa foi ousada mas não necessariamente parecia uma má ideia. "Foi uma das principais medidas do Plano Collor, […] como estratégia para conter a hiperinflação", resume à BBC News Brasil o economista e engenheiro Mauricio Takahashi, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie Alphaville. >
"A lógica, na teoria monetária da época, era que a inflação era causada pelo excesso de moeda circulante na economia", complementa ele.>
Então, diz o professor, o contexto "exigia uma medida drástica para conter a demanda agregada". Com o confisco, "enxugava-se o dinheiro da economia". >
"A ideia era reduzir a liquidez da economia de forma muito brusca, diminuindo o poder de compra da população e das empresas. Em tese, controlando rapidamente a inflação para conter o aumento impulsionado somente pela demanda.">
Conforme explica à BBC News Brasil o economista Antonio Carlos dos Santos, professor na PUC-SP, a ideia do confisco previa combater um efeito colateral de medidas anteriores que forçavam artificialmente a queda da inflação. Nelas, o que se observava era que "a queda rápida da inflação" provocava aumento da liquidez e acabava "pressionando a demanda agregada".>
O confisco seria uma maneira de romper esse ciclo vicioso, portanto. "Um plano de estabilização econômica provocava a queda da inflação, mas com isso havia um aumento da monetização que acabava se transformando em pressão sobre a demanda", resume. "Para evitar isso, fez-se uma contração brutal da liquidez.">
O tiro podia ser potente mas saiu pela culatra. "Não deu certo porque a inflação não era um processo exclusivamente de demanda. Os agentes econômicos se protegiam por meio de indexações. E eles continuaram a praticá-las", diz Mello.>
O Ibovespa, mais importante indicador de desempenho das ações negociadas em bolsa de valores do Brasil, passou a registrar números catastróficos, chegando a uma queda de 22,27% no dia 21 de março.>
O Plano Collor desencadeou uma crise de confiança no mercado, minando a credibilidade das aplicações financeiras. >
Se era esperada uma pequena e rápida recessão, o que houve foi uma violenta queda de 4,35% do Produto Interno Bruto (PIB). A inflação até que experimentou certo recuo, caindo para "apenas" 7,5% em maio daquele ano. Mas não demorou muito para que voltasse ao patamar de dois dígitos por mês.>
A economista Mello diz que o país seguiu enfrentando desvalorização cambial que "pressionava o processo inflacionário". No fim das contas, a diminuição da oferta monetária provocada pelo confisco "teve mais impacto na [redução da] oferta de bens e serviço do que nos preços dos bens e serviços". Por isso, "tivemos uma contração do PIB", explica ela.>
Pinto Júnior explica que a medida acabou "desestruturando a economia", com "aumento grande de desemprego" e uma "semiparalisia da produção". >
"Houve a perspectiva de uma grande recessão. Um problema gravíssimo para um governo que estava iniciando", diz.>
"Não deu certo porque ao se tirar o estoque de recursos que as pessoas guardaram, elas começaram a ganhar tudo de novo, acumulando novamente e gastando", acredita Inhasz. >
"O segundo ponto foi que a medida gerou uma onda de incerteza, de insegurança. Tão grandes que muitas empresas fecharam e ninguém mais confiava em nada que o governo falava.">
O professor Takahashi faz uma interessante analogia para explicar o fracasso da iniciativa. Ele compara o país acometido pela hiperinflação a uma pessoa sofrendo com febre alta. "Aí, em vez de combater a febre, imagine deixar essa pessoa em jejum absoluto até que os órgãos não consigam mais funcionar", diz ele. Foi mais ou menos esse o efeito do confisco.>
"O Brasil não tinha apenas a inflação como problema, a década de 1980 é considerada a década perdida pois o Brasil apresentou retrocesso na sua capacidade de gerar renda ou capacidade produtiva", acrescenta Fava. "O governo tinha pouca capacidade de arrecadação e muitos gastos a serem feitos.">
"O confisco no cenário da época acabou reduzindo a capacidade produtiva. Muitas empresas faliram, ficaram sem capital de giro, inviabilizando pagamento de fornecedores e trabalhadores", diz a economista. "O cenário de recessão não conteve a inflação pois o governo teve que continuar imprimindo moeda para se financiar.">
"A classe média e a classe mais baixa foram quem acabaram pagando o custo dessa política", comenta Inhasz. "Muitos dizem que as pessoas mais ricas e influentes conseguiram ter a informação antes do confisco acontecer, retirando seus recursos da poupança.">
No aspecto prático, a perda foi mais sentida por aqueles que não eram ricos mas tinham uma certa reserva de capital acumulada justamente naquele período. >
"Quem tinha juntado recursos com a expectativa de gastar comprando um imóvel, por exemplo", cita Mello. "O governo criou um cronograma de pagamentos de devolução desse dinheiro aos poucos, o valor foi voltando para a conta das pessoas, mas voltou com uma atualização monetária menor. (O valor de) Um imóvel ficou muito mais elevado do que o que foi corrigido.">
"A devolução veio com um valor aquém do que o esperado pelas pessoas", resume ela.>
"Quem perdeu? O pessoal que sempre perde nesses eventos: os setores de baixa renda, os mais desorganizados [financeiramente] que não têm como se proteger seja de uma hiperinflação seja de um plano de contração econômica", critica Santos. >
"A contração brutal de liquidez teve um custo social muito elevado. Foram inúmeras histórias de gente que estava para dar entrada em um apartamento e acabou prejudicada.">
O episódio se tornou tão emblemático que seria o início de uma crise governamental que jamais se estancaria completamente — desencadeando no processo de impeachment de Collor, dois anos depois. >
"O Plano [Collor] levou o caos para a economia e o governo perdeu apoio, começou a perder apoio político", avalia Pinto Júnior. "Tanto que depois foi cassado. Havia uma situação grave na economia seguida por todas as denúncias de corrupção.">
Procurado pela BBC News Brasil, o ex-presidente Fernando Collor não comentou a política monetária que inaugurou o seu governo. >
Em 2020, em suas redes sociais, ele pediu desculpas à população pelo pacote econômico, dizendo que acreditava que só medidas radicais poderiam conter a inflação. >
"Acreditei que aquelas medidas radicais eram o caminho certo. Infelizmente, errei. Gostaria de pedir perdão a todas aquelas pessoas que foram prejudicas pelo bloqueio dos ativos", escreveu ele.>
"Os resultados foram maléficos para a economia brasileira", sentencia a economista Inhasz.>
Takahashi pontua que ficou a lição: "não tem bala de prata em Economia". "Na vida real, não existe solução mágica", diz. "Esse plano serve, então, de lição histórica.">
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