Algumas críticas são complicadas em excesso, admito. Como, por exemplo, a problematização que fiz do péssimo “Ele Acredita em Papai Noel!”, da Netflix; a pessoa clica ali e encontra um texto falando da passada de pano que os filmes natalinos fazem com o aspecto capitalista da data, mas não era isso o que ela queria. Para evitar esse problema, prometo que a crítica de “Os 4 Malfeitores”, também da Netflix, será enxuta.
Se você clicou para saber se vale a pena clicar no filme mais visto da Netflix neste momento, a resposta é… depende. “Os 4 Malfeitores” é uma comédia de ação muito focada nesses dois aspectos, ou seja, muito tiro, explosões, bazucas e absurdos do cinema de ação misturado a um texto de pegada cômica e muito humor físico. Se essa é a sua praia, clique e se divirta, mas, se busca algo mais sério, melhor buscar outra opção.
O filme dirigido por Timo Tjahjanto (do excelente “A Noite nos Persegue”, da Netflix) tem início em alta rotação. Uma criança é deixada em um orfanato, mas logo descobrimos que, na verdade, aquela instituição é fachada para um grande esquema de tráfico de órgãos. É quando conhecemos os malfeitores do título, Topan (Abimana Aryasatya), Alpha (Lutesha), Jenggo (Arie Kriting) e Pelor (Kristo Immanuel), cada um com suas habilidades, enquanto eles dizimam a quadrilha em uma ótima sequência de ação.
Depois entendemos que os quatro são irmãos de criação, crianças órfãs adotadas e treinadas por Petrus (Budi Ros), que está prestes a se aposentar para passar mais tempo com a filha biológica, Dina (Putri Marino), por ironia, uma policial que desconhece as outras atividades do pai. Obviamente, a aposentadoria para um “criminoso” (o filme nunca fala que crimes são esses) não é um caminho fácil; Petrus é assassinado por alguém que lhe é familiar, para o desespero de Dina.
O filme então dá um salto temporal quando a policial convenientemente encontra uma pista que a leva à paradisíaca ilha onde Topan e os outros três se exilaram desde então. Após aquele estranhamento inicial básico, eles percebem haver mais gente atrás deles, talvez o assassino do pai, em um movimento não muito inteligente de ir atrás da policial que o persegue há três anos e de outros assassinos igualmente treinados.
“Os 4 Malfeitores” é um filme divertido, mas é também bobo em excesso. As piadas dificilmente funcionam quando não são empregadas durante as lutas ou em alguns outros momentos inusitados - o texto nunca fala sério, exigindo dos atores atuações no limite da caricatura. Funciona, por exemplo, na cena em que Dina e Topan se conhecem no hotel, mas são muito ruins quando a policial conhece Alpha, por exemplo.
O filme de Timo Tjahjanto, como era de se esperar, é muito melhor quando parte para a ação. “Os 4 Malfeitores” tem coreografias complexas e bem executadas, filmadas em takes que não chegam a ser longos, mas que tampouco são picotados a ponto de o espectador não entender o que vê em tela, um recurso para esconder coreografias ruins, atores que não sabem lutar ou diretores que não sabem filmar o gênero, o que não é o caso aqui.
Mesmo entendendo ser o roteiro apenas o fio que conecta as piadas e as cenas de ação, é impossível não pensar como ele poderia ser melhor. O filme pouco tira proveito da dualidade de Dina ser uma policial trabalhando com os irmãos “criminosos”, mas tampouco explora esse lado fora da lei deles - a única vez que os vemos em ação antes da trama principal é na sequência que abre o filme, quando eles acabam com uma operação de tráfico de órgãos, ou seja, estão mais para justiceiros altamente treinados e violentos do que para criminosos. Da mesma forma, algumas revelações entregues ainda no primeiro ato poderiam ser tranquilamente guardadas para fins dramáticos no terceiro, mas fica clara não ser essa a intenção do filme.
“Os 4 Malfeitores” inicialmente choca pelo nível de violência, mas essa impressão é diluída justamente pelo lado cômico, tornando tudo “divertido”, algo ao estilo "The Boys", por exemplo. Em alguns momentos, o filme entrega referências estéticas dos cinemas de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez - é curioso como, às vezes, Timo Tjahjanto parece emular ambos, mas, em outras sequências, demonstra beber das mesmas influências, como o cinema de ação asiático e os faroestes italianos. Esteticamente, o filme é ótimo e faz jus às referências.
Ao fim, um gancho mostra o desejo do cineasta (e da Netflix) por uma franquia de ação, o que não seria nenhum absurdo. Há muito a ser explorado no universo do filme e boas cenas de ação nunca cansam, mas é necessário um roteiro melhor para sustentá-las e fazer o público voltar para o mundo de “Os 4 Malfeitores” sem o interesse do frescor, o poder da novidade.