A virada dramática na carreira de Steve Carrell é impressionante. Desde que chamou a atenção do público, roubando a cena de Jim Carrey em “O Todo Poderoso” (2003), e depois, eternizado como o Michael Scott, em “The Office”, o ator virou um nome ligado às comédias, mas sua desconstrução em um ator de dramas foi surpreendentemente natural, primeiro em comédias dramáticas, como “Pequena Miss Sunshine” (2007) ou “Amor à Toda Prova” (2011), até chegar em dramas, de fato, filmes como “Foxcatcher” (2014), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator, e “Querido Menino” (2018).
É muito interessante como Carrell não precisou abdicar de seu tempo de humor, ou nem mesmo das comédias, para se tornar um ator dramático que encontra seu ápice em “O Paciente”, minissérie do FX que o Star+ lança no Brasil dia 21 de dezembro, com todos os dez episódios disponíveis na estreia.
Escrita por Joel Fields e Joe Weisberg, da ótima “The Americans”, “O Paciente” acompanha Alan (Steve Carrell), um terapeuta sequestrado por um paciente, Sam (Domnhall Gleeson), um homem perturbado ao reconhecer em si as características de um serial killer. A ideia de Sam, ao manter Alan em cativeiro, é justamente para que ele trate de seus impulsos homicidas.
Como um bom e tenso thriller psicológico, “O Paciente” tem ritmo cadenciado e muita coisa acontecendo mesmo quando nada parece acontecer, pois os diálogos entre os protagonistas são ótimos. A escolha por episódios ligeiramente mais curtos, com cerca de 30 minutos cada, funciona a favor da narrativa, que nunca se torna cansativa. O texto também mostra, em flashbacks motivados pelos devaneios de Alan, o passado do terapeuta, seus problemas após a morte da esposa e na dificuldade de lidar com o afastamento do filho, um sujeito extremamente religioso.
Ironicamente, mesmo sendo a história de um serial killer, a série se distancia bastante de narrativas como “Dahmer”, por exemplo. O roteiro lida muito com temas religiosos, principalmente com a culpa e o arrependimento, principalmente quando Alan busca se entender diante de sua família. O aspecto religioso se contrapõe ao terapeuta, um sujeito cético e extremamente irritado com a radicalização de seu filho, convertido ao judaísmo ortodoxo.
O texto se esforça para traçar paralelos e similaridades entre o judaísmo e a psicologia, arco que talvez não funcione para alguns (não funcionou para mim) e que dá à série uma pegada diferente, principalmente quando trata do Holocausto. É também o arco em que a narrativa mais desafia o espectador a se manter atento, pois não é fácil imaginar os caminhos traçados pelo roteiro.
“O Paciente” se sustenta no equilíbrio da dinâmica entre Sam e Alan, que pode salvar vidas ou ser a próxima vítima de seu paciente. A série estabelece uma rotina para os episódios, com Sam, um inspetor sanitário, sempre retornando para casa com comidas diferentes para discutir seus problemas com Alan.
É muito curioso como essa relação se desenvolve - Sam já era paciente de Alan, com um nome falso, e o tratamento foi encerrado ao chegar a um ponto sem saída. Agora, de maneira torta e disposto a se abrir, ele cria com Alan uma intimidade quase unilateral, pois é difícil entender, de fato, naquela situação, o quanto de terapeuta há na atuação do refém.
Carrell é ótimo no papel, talvez na atuação mais séria de sua carreira, mas com um pequeno espaço para o humor nos momentos em que a dinâmica se torna menos tensa. Da mesma forma, Gleeson é impecável para a série justamente por ser uma incógnita, um sujeito difícil de ser lido, sempre tenso, sempre ensaiado; ele parece usar uma peruca, parece usar maquiagem, mas não se tem essa certeza. Sam é um serial killer em formação, ainda sem um modus operandi, uma marca ou até mesmo um perfil psicológico em que possa ser encaixado, mas suas obsessões estão nos detalhes.
Mesmo quando a série parece sair dos trilhos, Steve Carrell mantém o interesse do espectador. Ao fim dos dez episódios, a sensação é incômoda, e talvez seja essa a intenção - vale lembrar que a série foi pensada e lançada como um episódio por semana. Um texto totalmente original, algo raro hoje em dia, “O Paciente” começa como entretenimento, ganha rumos estranhos nos episódios do segundo ato, e se encerra de forma provocadora. Provavelmente não estará em muitas listas de melhores do ano, mas é uma das mais originais da temporada 2022.