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Crítica

"O Cemitério das Almas Perdidas" é o grande épico de terror capixaba

Sexto filme do cineasta Rodrigo Aragão, um dos grandes nomes do terror do Brasil, "O Cemitério das Almas Perdidas"

Publicado em 19 de Setembro de 2020 às 15:00

Públicado em 

19 set 2020 às 15:00
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Filme
Filme "O Cemitério das Almas Perdidas", de Rodrigo Aragão Crédito: Fábulas Negras/Divulgação
Nos longínquos anos 1990, uma banda capixaba chamava atenção mais pelo visual do que pela música - o Cannibal Clown fazia uma mistura de metal com funk e chegou a ter um reconhecimento legal no circuito independente local. Para fazer jus ao nome da banda, todos os integrantes usavam máscaras de assustadores palhaços, e as máscaras eram incrivelmente bem confeccionadas e assustadoras. Na época, diziam que era um “maluco lá de Guarapari” que as fazia.
Muitos anos depois, em 2008, a colega Ana Laura Nahas escreveu para a saudosa revista “Bravo” um texto que antecipava a estreia do primeiro longa do tal “maluco de Guarapari”, que agora ganhava um nome: Rodrigo Aragão. Naquele mesmo ano, durante a cobertura do então Vitória Cine Vídeo, presenciei uma sessão lotada do filme em questão, “Mangue Negro”, no Cine Jardins. A caminhada de Rodrigo para se tornar um dos maiores nomes do terror brasileiro já havia começado.
Agora, passados 12 anos que viram o lançamento de outros quatro filmes (incluindo a antologia “Fábulas Negras”, ao lado do mestre José Mojica Marins), Rodrigo chega ao filme que deve colocá-lo em outro patamar. “O Cemitério das Almas Perdidas” é um sonho antigo, seu grande épico de terror e uma história que ele vinha guardando há quase 20 anos, até o momento em que finalmente tivesse recursos para filmá-la.
Com orçamento de R$ 2,1 milhões, o filme traz um grande salto de qualidade técnica no trabalho cineasta capixaba. Claro que isso não significa que ele tenha deixado de lado suas criaturas fantásticas e seus monstros, apenas que consegue fazer isso com “mais dignidade” para todos os envolvidos, como ele mesmo definiu.
“O Cemitério das Almas Perdidas” é um filme que se conecta ao universo criado por Rodrigo desde “Mangue Negro” (2008) - tudo gira em torno do lendário “Livro de Cipriano”, obra cercadas de lendas e cheia de conjurações, feitiços e magias. O livro está presente em todos os filmes do diretor e normalmente é responsável pelo surgimento das criaturas imaginadas pela mente de Rodrigo; o novo filme reimagina como esse livro veio parar no Brasil e como ele se misturou a cultura dos povos nativos.
Filme
Filme "O Cemitério das Almas Perdidas", de Rodrigo Aragão Crédito: Fábulas Negras/Divulgação
Em uma história clássica de bem contra o mal, o cineasta traz elementos de terror e fantasia que se misturam com a História do Espírito Santo, como a chegada dos Jesuítas e o massacre dos índios, mas nunca com a intenção de transformar sua obra em um registro histórico, longe disso, Rodrigo busca apenas ampliar seus horizontes criativos e suas possibilidades, além de oferecer ao espectador capixaba algo com que se identificar.
“O Cemitério das Almas Perdidas” é o filme mais curto da carreira de Rodrigo Aragão, com pouco mais de 90 minutos, e também o mais conciso. Tal qual Quentin Tarantino em “Era Uma Vez… em Hollywood” (2019), o cineasta capixaba guarda para o clímax do filme o que os fãs esperam de seu cinema. Isso não significa que o resto do filme seja morno, pelo contrário, há lutas de espadas, zumbis e elementos que remetem ao terror italiano dos anos 1960 e 70 e a filmes de diretores como Dario Argento (“Suspiria”) e Mario Bava (“A Maldição do Demônio”), com muita fantasia e folclore, sempre explorando o ambiente e aproveitando para brincar com os sentidos dos espectadores.
Filme
Filme "O Cemitério das Almas Perdidas", de Rodrigo Aragão Crédito: Fábulas Negras/Divulgação
Além da já citada “dignidade” aos envolvidos, um maior orçamento resulta também em qualidade. A possibilidade de gravar em estúdio a maior parte do filme possibilita uma iluminação mais bem trabalhada e uma pós-produção mais completa. O áudio, por exemplo, tão criticado em produções nacionais, é ótimo.
É interessante perceber como “Cemitério das Almas Perdidas” traz um Rodrigo mais preocupado em contar uma história do que em repetir o que já deu certo em seus outros filmes. A narrativa se divide em períodos temporais diferentes - uma delas acompanha a chegada de jesuítas ao Brasil e a outra um grupo de teatro de terror que para em uma pequena cidade com seu espetáculo. As histórias se cruzam com naturalidade e ritmo interessante.
Crédito:
Rodrigo entende a magia do cinema e as possibilidades que ela traz. Seus filmes, por mais que muitos tenham nomes similares, são distintos, com narrativas diferentes, indo do “terrir” de “Mangue Negro”, cheio de influências de Sam Raimi e “Evil Dead”, ao terror folclórico de “O Cemitério das Almas Perdidas”, passando pela jornada do herói de “Mata Negra” (2018) e pela mensagem ecológica de “Mar Negro” (2016). A assinatura do diretor está sempre lá: efeitos práticos, maquiagem e monstros fantásticos, mas seu cinema tem um elemento principal, a diversão.
Na cabeça de Rodrigo Aragão, o ideal é que o público se divirta vendo os filmes tanto quanto ele se divertiu imaginando e filmando tudo aquilo, em “O Cemitério das Almas Perdidas” é exatamente isso o que acontece.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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