Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Apaixonados Outra Vez", da Netflix, é frustrante após ótimo início

Do mesmo criador de "Elite", "Apaixonados Outra Vez" tem início espetacular e promete ótima história de encontros e desencontros, mas nunca entrega o prometido

Vitória
Publicado em 15/02/2023 às 18h40
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Série "Apaixonados Outra Vez", da Netflix. Crédito: CARLA OSET/NETFLIX

“Apaixonados Outra Vez”, série espanhola lançada pela Netflix, tem um início espetacular. Conhecemos Irene (Georgina Amorós, de “Elite”), uma jovem do interior às vésperas de partir para Madrid, onde vai estudar cinema. Uma narração nos explica que a acompanharemos ao longo de anos em sua relação de idas e vindas com Julio (Franco Masini, de “Rebelde”), um jovem argentino que estuda Direito na mesma universidade. O primeiro episódio ainda nos apresenta a outros personagens que nos acompanharão na jornada, como Fer (Albert Salazar), ex-namorado de Irene, Jimena (Bianca Martinez) e Da (Carlos González), colegas de sala e de apartamento da protagonista. Sem revelar spoiler algum, o início da série traz também um acontecimento que marcará para sempre a vida desses jovens, reforçando seus vínculos ao longo dos anos.

O nome original da série, “Todas as Vezes que nos Apaixonamos”, é mais interessante do que a versão brasileira, “Apaixonados Outra Vez”, e dá o tom de uma histórias cheia de idas e vindas, encontros e desencontros. Após o primeiro episódio, o texto dá saltos temporais que levam a história quase duas décadas adiante, uma narrativa que, a princípio, se assemelha muito a de obras como “Normal People” ou “Um Dia”, por exemplo, mas com uma pegada menos literária, mais jovem, dialogando com os rostos de seus atores e a carga que eles levam à série.

É interessante como “Apaixonados Outra Vez” se transforma ao longo de seus oito episódios, do início com características de comédia romântica independente, passando pelos episódios centrais, muito mais convencionais, até chegar ao desfecho superficial que provavelmente incomodará parte dos espectadores.

Não deixa de ser frustrante como a série criada por Carlos Montero (“Elite”) desenvolve seu núcleo. A promessa de acompanharmos um relacionamento ao longo de anos logo é desfeita, pois há uma grande lacuna nunca explorada - talvez na ânsia de já pensar novas temporadas e guardar conteúdo para elas. O problema é que os recortes do passado são todos muito próximos, situados em menos de dois anos, e em sequência direta, ou seja, nunca vemos o relacionamento se aprofundando em novos ambientes, em novas fases da vida dos protagonistas, apenas naquele ambiente universitário e de início profissional. A dinâmica da história e de seus conflitos acabam sempre iguais: Irene e Julio se encontram, reacendem a paixão adormecida, ficam juntos por algum tempo até alguém fazer alguma besteira que acaba em separação.

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Série "Apaixonados Outra Vez", da Netflix. Crédito: CARLA OSET/NETFLIX

Essa construção é frustrante por subdesenvolver arcos potencialmente interessantes, como os rumos das carreiras de ambos os protagonistas - Julio se torna uma grande estrela do cinema espanhol e Irene, uma frustrada diretora de peças publicitárias. Ao invés de usar o filme feito por Julio apenas como faísca no terceiro ato da temporada, o roteiro deveria explorar mais o conflito causado por ele e o que aquilo representaria na vida de Irene.

Deixando de lado a discussão sobre Georgina e Franco interpretarem adultos com quase quarenta anos, é curioso, também, como todo arco do futuro é construído com migalhas, pensando apenas na cena que encerra a temporada ou, quiçá, a série; é como se a sequência tivesse sido a primeira a vir à cabeça de Carlos Montero na criação do texto. A solução é boba, mal construída e faz pouco sentido, aproximando a série de obras infantojuvenis.

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Série "Apaixonados Outra Vez", da Netflix. Crédito: CARLA OSET/NETFLIX

A frustração, talvez o tema maior deste texto, se dá justamente por pensar no potencial que o ótimo início da série oferece para um desenvolvimento. “Apaixonados Outra Vez” não entende que sua força reside na relação central, algo que começa muito bem, de maneira divertida e até orgânica - o evento do final do primeiro episódio também acaba pouco explorado. Ao saltar quase duas décadas para chegar a tal cena final, a impressão que temos é que Irene estaria melhor sozinha, pois sua relação com Julio tem bons momentos, mas nunca parece saudável ao olhar do espectador. Da mesma forma, o outro pretendente (não vou dar spoilers) nunca é apresentado como uma opção plausível para Irene, que parece ter plena ciência disso.

“Apaixonados Outra Vez”, ao fim, decepciona. Mesmo que o final fosse melhor, fugindo do clichê hollywoodiano, a promessa do início era por algo diferente, pela construção de um vínculo indestrutível a partir do trauma compartilhado, um vínculo que se confundiria com amor, mas que talvez fosse algo maior, tornando Irene e Julio inseparáveis até mesmo contra seus desejos. Falta à série algo como o “eu te amo, mas não gosto mais de você” de “Um Dia”, de David Nichols, ou a construção do amor de “Normal People”, de Sally Rooney; em resumo, falta a “Apaixonados Outra Vez” parar de reproduzir o que já foi feito e assumir o risco de sair da normalidade.

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