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A investigação que mostra a ação de mercenários latino-americanos na guerra do Sudão

Análise de dados obtidos a partir do rastreamento de celulares na região aponta a existência de uma rede de mercenários colombianos, com apoio dos Emirados Árabes Unidos, que tem tido participação importante no conflito que devasta o país.

Publicado em 09 de Maio de 2026 às 17:34

BBC News Brasil

Publicado em 

09 mai 2026 às 17:34
Imagem BBC Brasil
O grupo paramilitar RSF luta contra o exército sudanês desde 2023 Crédito: Reuters
Uma rede de mercenários colombianos, apoiada pelos Emirados Árabes Unidos, forneceu assistência fundamental aos rebeldes das Forças de Apoio Rápido do Sudão (RSF, na sigla em inglês). Sua participação permitiu ao grupo capturar, no ano passado, a cidade de El-Fasher, no oeste do país, segundo um estudo recentemente publicado.
Realizada pela organização de análise de segurança Conflict Insights Group (CIG), a investigação empregou dados obtidos do rastreamento dos telefones celulares dos combatentes colombianos.
Os EAU vêm negando reiteradamente dar apoio às RSF, que combatem o exército regular sudanês há três anos.
A queda de El-Fasher, no Estado sudanês de Darfur do Norte, foi um dos episódios mais brutais do conflito e gerou a pior crise humanitária do mundo, com dezenas de milhares de mortes e milhões de pessoas deslocadas.
A CIG acompanha de perto as evidências da extensa assistência militar dos Emirados às RSF, mas "esta é a primeira investigação que consegue comprovar com segurança o envolvimento dos EAU", segundo o diretor da entidade, Justin Lynch.
"Estamos divulgando aquilo que os governos sabem há tempos: que existe um vínculo direto entre Abu Dhabi e as RSF", afirma ele.
Lynch destaca que o relatório "demonstra que os mercenários que utilizavam drones viajaram de uma base nos Emirados Árabes Unidos para o Sudão, antes da captura de El-Fasher pelas Forças de Apoio Rápido (RSF)".
"Os mercenários que participaram das operações com drones chegaram a dar à sua rede de wi-fi o nome da sua unidade, vinculada a uma empresa que operava dos Emirados Árabes Unidos."
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, declarou no ano passado que os mercenários são "espectros da morte" e que seu recrutamento constituía uma "forma de tráfico de pessoas".
A BBC pediu posicionamento do governo dos Emirados sobre as informações divulgadas.
Os Emirados Árabes Unidos já emitiram comunicados rejeitando as acusações de que apoia as RSF, qualificando-as de "falsas e infundadas". Também condenaram, "da forma mais enérgica", as atrocidades cometidas em El-Fasher.
Analistas concordam que o apoio estrangeiro aos dois grupos tem sido fundamental para a continuação e a expansão da guerra civil sudanesa.
Imagem BBC Brasil
A queda da cidade de El-Fasher causou dezenas de milhares de mortes e o deslocamento de milhões de pessoas Crédito: Getty Images
A CIG afirma que utilizou tecnologia comercial projetada para personalizar anúncios de publicidade na sua investigação.
Com isso, a entidade conseguiu rastrear mais de 50 telefones celulares no Sudão, entre abril de 2025 e janeiro deste ano.
Seus operadores eram mercenários colombianos. Alguns deles atuavam em zonas controladas pelas RSF de onde foram lançados drones.
A organização também empregou dados de acompanhamento de voos, imagens de satélite, vídeos nas redes sociais, notícias e artigos acadêmicos para respaldar suas análises.
Segundo o relatório, os dados detalham uma rede que demonstra a presença dos mercenários em diversos centros de operações regionais, principalmente em um centro de treinamento militar dos Emirados Árabes Unidos em Ghayathi (Abu Dhabi).
Foi possível, por exemplo, rastrear um celular da Colômbia até o Aeroporto Internacional Zayad, em Abu Dhabi, e dali até o centro de treinamento, onde também havia outros quatro aparelhos configurados em espanhol, o idioma falado na Colômbia.
Dois destes telefones foram transportados posteriormente para o Estado de Darfur do Sul, no Sudão, e outro para Nyala, a capital de facto das RSF. Ali, ele foi conectado às redes de wi-fi "ANTIAEREO" e "AirDefense" ("defesa aérea", em inglês).
Nyala é um centro importante para os mercenários colombianos e para as operações com drones das RSF, segundo o relatório. A CIG documentou atividade significativa de drones na região e identificou mais de 40 aparelhos usando o idioma espanhol.
Em outro estudo de caso, a CIG rastreou um celular da Colômbia até Nyala e, dali, até El-Fasher em outubro passado, quando as RSF tomaram a cidade, depois de um cerco de 18 meses.
Enquanto estava em El-Fasher, o aparelho se conectou a uma rede de wi-fi chamada "ATACADOR", segundo o relatório.
A CIG identificou outros aparelhos associados a mercenários colombianos, que também estiveram presentes durante a tomada da cidade por parte das RSF.
Imagem BBC Brasil
Imagem de outubro do ano passado mostra sala de aula em El-Fasher que havia servido de refúgio a vítimas da guerra e foi destruída por bombardeios durante cerco das RSF Crédito: Reuters
A queda da cidade foi acompanhada por atrocidades em massa, qualificadas como crimes de guerra e crimes contra a humanidade pelo promotor do Tribunal Penal Internacional (TPI) e descritas por pesquisadores da ONU como atos com "características de genocídio".
"A CIG considera que a rede de mercenários dos EAU e da Colômbia tem responsabilidade conjunta por estes fatos", afirma o relatório.
"A magnitude das atrocidades e o cerco a El-Fasher não teriam ocorrido sem as operações com drones proporcionadas pelos mercenários", destaca Lynch. Ele indica provas de que eles também colaboraram com o cerco das RSF.
Segundo o relatório, os mercenários operavam como parte da brigada Lobos do Deserto, como pilotos de drones, instrutores e membros da artilharia.
Um deles se conectou a redes de wi-fi denominadas "DRONES" e "LOBOS DEL DESIERTO", com o celular configurado em espanhol.
A brigada é liderada pelo coronel aposentado do exército da Colômbia Álvaro Quijano, segundo o portal de notícias colombiano La Silla Vacía. Quijano reside nos Emirados Árabes Unidos e sofreu sanções dos governos dos EUA e do Reino Unido, por recrutar colombianos para combater no Sudão.
Imagem BBC Brasil
'A magnitude das atrocidades e o cerco a El-Fasher não teriam ocorrido sem as operações com drones proporcionadas pelos mercenários', destaca Justin Lynch Crédito: Getty Images
Os Lobos do Deserto foram empregados e pagos por uma empresa com sede nos Emirados Árabes Unidos. Ela tem vínculos documentados com altos funcionários do governo dos EAU, segundo La Silla Vacía e documentos obtidos pela CIG, indica o relatório.
A CIG também afirma ter identificado aparelhos com configuração em espanhol em um porto da Somália com vínculos com os Emirados Árabes Unidos, bem como em uma cidade do sudeste da Líbia, considerada centro logístico do fluxo de armas para as RSF, supostamente viabilizado pelos Emirados.
Estimava-se anteriormente que havia poucas centenas de combatentes colombianos no Sudão.
Os Estados Unidos estabeleceram sanções a cidadãos colombianos e empresas associadas em duas ocasiões, por recrutar mercenários para lutar no Sudão. A primeira vez foi em dezembro do ano passado e novas sanções foram criadas em meados de abril.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirmou que combatentes colombianos apoiaram a captura de El-Fasher pelas RSF, mas evitou estabelecer conexão direta com os Emirados Árabes Unidos.

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