Uma jornalista que ama os animais, assim é Rachel Martins. Não é a toa que ela adotou duas gatinhas, a Frida e a Chloé, que são as verdadeiras donas da casa. Escreve semanalmente sobre os benefícios que uma relação como essa é capaz de proporcionar

Quando você descobre que seu “filho de quatro patas” é surdo

Camila,  que nasceu em Farroupilha, Rio Grande do Sul, conta que quando se mudou para Vitória sentia-se muito sozinha e queria uma companhia

Publicado em 16/11/2020 às 05h00
Atualizado em 17/11/2020 às 14h44
Camila com Ravena e Jorly com Thor
Camila com Ravena e Jorly com Thor . Crédito: Arquivo Pessoal

Meu querido diário... Quando conheci Camila Zamboni e Jorly Luiz Barbosa pelo meu perfil @eobicho_ag me encantei com a história de Thor (ravenaethor). Thor é surdo e, portanto, tem uma história de superação que merece ser contada.

Ravena dando um salto para pegar o disco
Ravena dando um salto para pegar o disco . Crédito: Arquivo Pessoal

Camila conta que quando se mudou para Vitória - ela nasceu em Farroupilha, Rio Grande do Sul -  sentia-se muito sozinha e queria uma companhia. Foi quando conheceu o Thor, um Dálmata ainda filhote. “A antiga tutora disse que ele não se adaptou em sua casa, porque era muito agitado, e o seu filho tinha medo. Mas, pra mim, foi amor à primeira vista”.

Com o passar dos dias, eles começaram a perceber que tinha algo errado. “Observamos que ele dormia muito. Quando chegávamos em casa demorava para acordar, o chamávamos e ele ignorava, e quando a gente ia acordá-lo, se assustava. Começamos a sacar que o Thor não escutava e procuramos um veterinário. E com alguns testes caseiros sua condição foi confirmada”, lembra Camila.

A psicóloga, com pós-graduação em comportamento animal, Carolina Jardim com Milka
A psicóloga Carolina Jardim (na foto com o Milka)  explica que 30% da raça dos Dálmatas são acometidos de surdez unilateral (um só lado) ou bilateral (dos dois). Crédito: Arquivo Pessoal

Foi um momento de tristeza, mais em nenhum momento Camila cogitou outra coisa senão procurar tratamento para o seu amado “filho de quatro patas”. “Eu achava que isso só acontecia com animais velhinhos, mas pesquisando descobri que os Dálmatas têm uma propensão enorme à surdez”.

Camila só pensava em como estabeleceria dali em diante uma comunicação com o Thor. “Eu me perguntava se nunca mais ele poderia passear, ficar solto em algum lugar, eram muitas as preocupações”.

A comunicação de Camila com Thor
A comunicação de Camila com Thor. Crédito: Arquivo Pessoal

Foi daí que resolveram procurar um adestrador para ajudá-los. “Mas por falta de conhecimento caímos numa armadilha de treinar o Thor com o uso de aversivos (como o colar eletrônico, entre outros). Foi horrível, um desastre. Isso acabou o deixando desconfiado e com medo. Hoje, após vários cursos que fiz até para entender melhor a condição de Thor, sempre alerto às pessoas para que elas se informem muito antes de procurar qualquer profissional e procurem sempre adestradores que trabalhem com o método positivo”.

Ao perceberem o erro, eles acharam a psicóloga, pós-graduada em comportamento animal, Carolina Jardim, que mora no interior de São Paulo. 

Camila

dona de Thor

"Ela (a psicóloga) foi a nossa salvação. Graças a ela, me comunico perfeitamente com Thor. Nós ‘conversamos’ com ele através de gestos, por isso Thor está sempre no nosso campo visual. Ele leva uma vida normal e convive muito bem com seus ‘irmãos’, a Dálmata Ravena e as gatas Cruella e Tigresa (ambas abandonadas em frente de casa)"
Thor com a gatinha Cruella
Thor com a gatinha Cruella. Crédito: Arquivo Pessoal

Segundo ela, só com as pessoas é que Thor é mais desconfiado, mais reativo. Isso tudo por conta do primeiro tratamento. Por isso, a aproximação precisa ser devagar. No mais, a surdez não o atrapalha em nada. A única questão é que por sua condição ele tem mais sensibilidade ao toque, então na hora de acordá-lo precisa ser de forma suave para que não se assuste”.

Procure profissionais qualificados

A psicóloga, pós-graduada em comportamento animal, Carolina Jardim, explica que 30% da raça de cães Dálmata são acometidos de surdez unilateral (um só lado) ou bilateral (dos dois).

Carolina Jardim

psicóloga, pós-graduada em comportamento animal

"É um índice muito alto. É uma tendência da raça. Em uma ninhada de 10 (dálmatas), três podem nascer surdos””, explica."

Segundo Carolina, o ideal seria que os canis já fizessem o teste nos Dálmatas quando eles ainda são filhotes. “O problema é que são pouquíssimos veterinários no Brasil que oferecem esse serviço, porque o teste é muito caro. Então, os canis acabam não realizando o procedimento e o cliente pode acabar levando um cão surdo para casa”, explica.

Por isso, ela sempre recomenda que a pessoa faça uma pesquisa criteriosa sobre o canil antes de adquirir o Dálmata tão sonhado. “Isso é muito importante, em todos os aspectos, não só neste caso”, explica.

Mas se você levou um Dálmata para a casa e começou, por algum motivo, a desconfiar que ele é surdo, Carol diz que é possível confirmar essa condição do seu pet com alguns testes caseiros. “Lá no meu instagram (@turmadofocinho_carol) tem um destaque com um vídeo explicando como realizá-lo”, diz.

O mais importante é não se desesperar. “Eu mesma sou dona, por escolha própria, do Milka, um Dálmata surdo, que leva uma vida normal e feliz”, ressalta.

Carolina explica, ainda, que é essencial procurar um adestrador que trabalhe só com o método positivo.

Carolina Jardim

psicóloga, pós-graduada em comportamento animal

"Qualquer outra técnica, esqueça. Os métodos aversivos, como o enforcador, o colar de choque (que foi usado no Thor), entre outros, só vão maltratar o animal e deixá-lo com muito medo"

O método positivo, ela explica, é simples: se o cão cumpre a tarefa, ganha algo bom, que pode ser um petisco, um brinquedo, um passeio, um carinho, coisas que ele ama fazer. Mas se não cumpre, tudo bem, apenas não vai ganhar nada. “Já chegaram até mim muitos cães surdos que receberam tratamento errado e dá pena de ver como chegam assustados e desconfiados. Nesse caso, demora bem mais o adestramento”, garante.

De acordo com Carolina, é necessário, no caso dos cães surdos, criar uma rotina e uma comunicação com o seu tutor através de gestos e postura. “Mas sempre usando o método positivo”, alerta.

Mas Carolina faz questão de enfatizar: “Não é mágica, o processo é lento, principalmente em cães traumatizados com adestramentos realizados de forma totalmente errada, que comprometeu o emocional do animal”.

Outras raças, como o Border Collie ou o Pastor Australiano, também podem nascer com surdez em decorrência do gene merle, “Nessas raças é preciso tomar cuidado com a pigmentação branca. Os que têm 80% do corpo branco, por exemplo, fogem do padrão, e não é indicado fazer a compra. Deveria ser proibido cruzar dois animais com o gene merle porque daí sim terão problema de surdez e cegueira”.

Gatos surdos

Ah, só para terminar, meus amiguinhos, os gatos brancos de olhos azuis têm 80% de chance de serem surdos. E segundo Carolina, o processo de adestramento é o mesmo, usando o método positivo. “Mas no caso dos felinos, ou cuidados para garantir a sua segurança são maiores, principalmente se eles têm costume de passear na rua”, explica.

Mas uma coisa é certa: caso você descubra que o seu pet é surdo, não é necessário devolvê-lo ou abandoná-lo. “Eles são tão capazes quanto qualquer outro de transmitir amor, basta um pouco de paciência e a pessoa vai descobrir a forma correta de se comunicar com ele. Depois, será só alegria e muita gratidão”.

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