Deve haver uma razão, respeitável público, para os incomensuráveis salários e suas absurdas ajudas de custo tirados do nosso bolso. Altos cargos, em sua maioria, são escolhidos pelas semelhantes autoridades, sem concurso público como é obrigatório para os brasileiros normais. Trabalham quando querem, e permanecem em Brasília, a capital, quando bem entendem.
Até agora, mesmo com a sobrecarga de atendimento, e considerando que toda consulta realizada por um médico do serviço público - e outros - sempre foi um risco de contágio, em qualquer especialidade ou atividade, o governo nunca pagou o justo a eles.
Reajuste? Nem pensar. De vez em quando, mas muito de vez, os burocratas de Brasília inventam um título na hora e jogam uns tostões, e olhe lá. Os sindicatos? Viajam muito e fazem muita festa.
Minha senhora, um esculápio com 35 anos de trabalho ininterrupto – desde que o mundo é mundo - sob condições de alto risco, aposenta-se, agorinha mesmo, no serviço público com cerca deR$ 5 a 6 mil e na maioria dos casos sem condições de exercer a clínica privada.
A maioria não conseguiu adquirir um consultório e a clientela nesta via é escassa, além disso, o governo não dispensa os ridículos impostos, como “reconhecimento”. Não vou citar aqui, por falta de espaço, os demais profissionais de saúde. Aguardem.
Sabe o que mais?
Ninguém fala nisso, a favor ou contra. Médicos morrem em silêncio, especialmente nas pandemias, como nesse pandemônio, por exemplo. Durante o período pré-mortal, no adoecimento do profissional, não há ajuda necessária. Os governantes seguem a tradição do "finge que não vê”.
Ainda bem que a mídia está atenta para os psicopatas doentes fantasiados de médicos que fazem barbaridades como assédios variados a pacientes em diversas condições em que esses e essas estão paralisados.
Um médico trabalhando em hospitais, Unidades de Tratamento Intensivo (UTI), fechados em consultórios e enfermarias, acaba contaminado mesmo que vacinado, vive em pânico, conheço vários e bastante bem.
A seriedade e o compromisso com o paciente os levam ao risco, de maneira inexorável. Ao chegar em casa, distribui o risco para a família de alguma maneira e intensidade. E o salário, ó...
Conheço muitos colegas médicos que se contaminaram – alguns gravemente – e aposentados. Muitas vezes, são os únicos da família - médico também tem família - a sustentá-la com o parco salário.
Porque o silêncio sepulcral sobre isso? Na linha de frente, quanta gente de jaleco, tratando e vacinando, arriscando-se por uma parcela da população que se recusa a pensar sobre algo que não conhece. A vacina impede, muito, mas muito mesmo, a contaminação desse novo assassino ou anteriores.
O médico Oswaldo Cruz ralou dezenas de anos nessa luta.
Alguém aí na plateia já presenciou um gesto defendendo um salário compatível com a necessidade para médicos? Já ouviu falar?
O governo está oferecendo uma esmolinha para o povo miserável criado pelas políticas governamentais, várias delas. Uma vergonha. Mais uma mentira. Estender o chapéu e aceitar, fazer o quê?
Onde estão o Conselho de Medicina e as inúmeras associações médicas?
Quero deixar de fora dessas pretensiosas palavras, os planos de saúde, que ocupam parte do lugar insuficiente, porém decente Sistema Único de Saúde (SUS).
O Programa de Saúde da Família (PSF) não chegou a operar e ocupar o sistema de prevenção.
Essas pragas que frequentemente atacam para matar o país, encontram o sistema de defesa desarmado, desarticulado, e os dirigentes, em sua maioria, inventando histórias para justificar ou deixar morrer.
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Para citar um exemplo bizarro, dezenas de pessoas morreram asfixiadas – eu disse asfixiadas – no Amazonas por falta de provisão de ar. Depois é só jogar mentira em cima do descaso.
Voltando ao tema dos vis tratamentos dispensados aos médicos concursados – a maioria das autoridades máximas nem sabe o que é isso - pós-graduados, com diferentes habilidades, tendo que atender nos inúmeros plantões.
O país não está preparado para absolutamente nada. As barbáries passam em branco.
A não ser na “Escolinha do Professor Raimundo”, através da personagem Dona Cândida, que se mostra horrorizada e grita, chorando por dois minutos diante das revelações absurdas, ditadas pelo gênio de Chico Anysio.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, reclama: “E o salário, ó”.