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Crônica

Sobre o jornalismo e suas mais apaixonantes fontes

Gabriel García Márquez escreveu um irretocável artigo em Los Angeles, exatamente no dia 7 de outubro de 1996, que homenageava a arte do jornalismo: “É a melhor profissão do mundo”

Publicado em 22 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

22 mar 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Literatura
O escritor colombiano Gabriel García Márquez Crédito: Divulgação/Arquivo
Eis que nesta manhã de domingo ensolarado, remexendo estantes, dou de cara com Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura, e uma de suas perfeições “Yo no vengo a decir un discurso”, isto é, “Eu não venho falar por falar”, eu traduziria. Mas quem sou eu. Colombiano, que nasceu em 1927 e morreu em 2014, marcou o timbre da América Latina na literatura mundial. Ainda não havia televisão em cores e muito menos bombas atômicas.
García Márquez escreveu um irretocável artigo em Los Angeles, exatamente no dia 7 de outubro de 1996, que homenageava a arte do jornalismo: “É a melhor profissão do mundo”. Uma vez lhe convidaram para discursar sobre ser jornalista: “Os jornalistas não são artistas, seus textos, muito pelo contrário, são um gênero literário”. Explicou que o mal é que os estudantes e muitos mestres não sabem ou não creem nisso.
Um estudante disse: “Escolhi comunicação e jornalismo porque sentia que a mídia escondia mais do que mostrava”. Brasileiros e brasileiras, vamos reconhecer que hoje em dia o noticiário conta com sofisticados recursos além da comunicação, como a televisão, o rádio e, muito principalmente, a inevitável internet.
Ele nos contou uma historinha muito interessante. Disse que há 50 anos, quando a imprensa colombiana - García era colombiano - estava na vanguarda da América Latina, não havia escola de jornalismo. Aprendia-se a profissão nas saletas disponíveis dos órgãos de imprensa, no café da esquina ou em um “departamento” como o antigo Britz em Vitória, na pracinha da prefeitura, bem na capital dos capixabas.
Lá como cá, os jornalistas andavam sempre juntos, até moravam juntos, e tão fanáticos pelo ofício que não falavam de nada além disso, literalmente. Aqueles que não aprendiam nas cátedras ambulantes e apaixonadas de 24 horas por dia, ou os que enchiam a muringa de tanto falar da mesma prática, ou desistiam de frequentar os buchichos, era porque se achavam, mesmo longe de ser assim.
A prática de 24 horas por dia de jornalismo paira até hoje. Os bambas da profissão praticam e transmitem a ideia de que o horário de um jornalista, seja de qualquer meio, não tem fim. Eu, modéstia às favas, muitas vezes, voltei à redação de madrugada para completar e aperfeiçoar um texto, assim como quase todos e todas da minha época.
Nessa onda estava o Bar Britz, na Praça Ubaldo Ramalhete, onde cabia toda a cidade viva.
Vamos lembrar que o jornalismo nasceu ao mesmo tempo que a imprensa, cujo inventor foi Gutemberg. A era do rádio demorou a pisar no calcanhar dos periódicos (devo confessar que sinto muitas saudades da imprensa de papel e do papel da imprensa).
Escrevo sobre as histórias antigas de jornais, rádios, papéis… para não me esquecer deles e nem vocês estimados e pacientes leitores esquecerem de mim.
Nos dias de carnaval, a concentração boêmia do Britz, sob o protesto dos moradores do edifício em frente, varava dois, três dias, ajudado pela moçada que descia da Piedade embalados por ritmo, música e alegria.
García Márquez gostava de ler seus textos para o público. Imprimi-los era apenas uma opção, curioso o mestre.
Vou encerrar antes de ter que contar a história da televisão, um gênio mágico que estava a ponto de chegar, e cujo império naquela época era difícil de imaginar. Eu acho que escrever é apaixonar-se pelo desconhecido.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, fareja notícias.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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