Antigamente, quando me deparava com o tema, achava impossível compreender. Estou me referindo à sociedade inglesa ao lidar, especialmente em Londres, com a comunidade indefesa diante dos ataques aéreos da Alemanha nazista, perversa e sofisticada.
Criava-se assim uma classe social, nunca antes navegada. Os moradores dos túneis subterrâneos de proteção, escavados nas ruas. Por incrível que pareça, a sociedade dos moradores de túneis recebia, ainda que precariamente, migalhas do estrato social, inclusive psicoterapia para crianças.
Isso não quer dizer que houvesse antes da guerra uma estrutura organizacional perfeita. Os subterrâneos sociais foram criados a partir da inevitável necessidade de sobrevivência. Os habitantes sujeitos aos bombardeios indiretos, mas violentos, foram obrigados a levar circunstancialmente para os túneis os sistemas que eram comuns em tempo de paz.
Para não perder o costume de aproveitar a experiência, por pior que fosse, a assistente social Clare Winnicott escreveu sobre os trabalhos desenvolvidos por ela e outros entre 1940 e 1945, o mais violento e destruidor período da II Guerra Mundial.
Um dos mais importantes trabalhos foi a abordagem através das publicações abordando a relação entre os miseráveis dos subterrâneos e os moradores de rua (mesmo antes da guerra) relacionados com a delinquência. Ou seja, o que a privação sistemática de uma pessoa tem a ver com a sua adesão à delinquência? Estabelecia uma relação de causa e efeito entre a fome e o descaso pela vida, por exemplo.
No Brasil, causa espanto a resistência das pessoas atingidas pela miséria, que vivem pelas ruas, não aceitarem ajuda de governos e organizações benfeitoras que teoricamente os livrariam dessa condição. A experiência da expulsão do curso social dos cidadãos excluídos dessa triste estatística, que sobrevivem às pragas sociais e mantêm funcionando seus sistemas fundamentais de sobrevivência, é uma exceção.
Estar atento ao efeito da separação, a desestruturante confusão gerada pela desintegração da vida familiar, passando a enfrentar, seja lá como for, o fenômeno das perdas – destruição e morte precoce – é fundamental aos organismos especializados nos governos em questões sociais. Proteger as paixões.
Isso sem falar em outras modalidades de diferenças menos encontradas na classe média, tais como morte por assassinato, fome e sede, demência, desabrigo e distanciamento total da perspectiva de um futuro alentador.
As festas das favelas e os carnavais de rua automaticamente estão repletos de tristeza e agonia. Anos atrás, no Sambão do Povo, uma agremiação desfilou denunciando a miséria do país tendo como alegorias mendigos – de verdade – catados nas ruas e cantando suas dores.
A experiência, no mundo todo, especialmente no Reino Unido, em trabalhar com crianças desamparadas, incapazes de trocas afetivas e, portanto, construindo a sua cidadania, mostrou-se insubstituível para a sociedade, como está sendo, por exemplo, a importante adesão física e consciente ao sistema de vacinação infantil no Brasil. É uma efetiva forma de ocupar com amor ao próximo a formação emocional da criança.
Convém citar o que postulou Julio de Mello Filho a esse respeito.
“Há muito na literatura psicanalítica interpretando a agressão – especialmente com raiva. Passando pela teoria psicanalítica ilustra: Um bebê dá pontapés dentro do útero. Não se pode dizer que ele queira sair ou esteja com raiva. Um outro, de apenas algumas semanas, quando tenta abanar os braços não se pode dizer que quer agredir. Ambos procuram relacionar-se e organizar-se.”
Interpretar certa agressividade na criança muitas vezes nos leva a observar energia para o bem. Todos necessitamos de um par protetor para nos interpretar e completar na maioria das vezes a tendência para o bem.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, respeita as vacinas.