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Crônica

No escurinho do cinema, o drops de anis e os Beatles

A não ser remetendo-se ao passado, ninguém entende mais de cinema e seus adereços, o que incluía toda a espécie de desejos, terrores, amores, guerras, cowboys

Publicado em 07 de Novembro de 2023 às 00:40

Públicado em 

07 nov 2023 às 00:40
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Quando a família Lumière projetou, em 1895, em celulóide, a sofisticada “Chegada do trem à estação”, com a duração de exatos 50 segundos, não imaginava o fenômeno e a maravilhosa dependência afetiva a que dera início entre os terráqueos.
Lembro muito bem da chegada da televisão e sua magia ao Brasil nos anos 50, acho. Fui, na qualidade de autêntico televizinho, à casa de tia Cecy ver TV. Começava a ser decretado lentamente o funeral do cinema nos moldes tradicionais.
A imagem era em preto e branco, tinha que ser traduzida de tão ruim, e o som, digamos, interpretado. Mas um televizinho esbanjava prestígio e a antena no telhado era decorada com uma das mil e uma utilidades do bombril da época.
Sala de cinema
Sala de cinema Crédito: Shutterstock
Cinema, pra que cinema? Com o tempo vai acabar. A título de despedida, “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. DeMille, de tão longo, tinha até intervalo. Adeus viola, tchau babau. Algumas cidades do interior do Brasil passavam cinema ao ar livre, no meio da rua, e de graça. Assistíamos de pé até o noticiário de um mês atrás.
Hoje, verificamos que a maquininha do futuro não acabou com o cinema, mas com a ida ao cinema e suas derivações: gritar, beijar, namorar, chorar, conviver com estranhos, etc. Tenho a impressão que abriu um vácuo social a súbita e indiferente interrupção dos programas diários de ver e comentar filmes.
A não ser remetendo-se ao passado, ninguém entende mais de cinema e seus adereços, o que incluía toda a espécie de desejos, terrores, amores, guerras, cowboys. A senhora está lembrada? Então, dá licença d’eu contar.
Aproveite, tolerante leitor, e enumere os dez filmes mais lembrados nas suas recordações. Se não lembrar do título, tente o assunto ou a sua companhia. Ao contrário do cinema que obriga o “sair de casa”, a TV – que tem infinitas vantagens, é verdade – favorece o aconchego do lar.
O cinema foi perdendo seus aliados. O jornal de papel acompanhou a velocidade das coisas e se adaptou à sua maneira. Antigamente, como dizia o jornalista Pedro Maia, um jornal sincero não acabava nunca, até quando acabava. Virava papel higiênico, useiro e vezeiro, por exemplo, nos banheiros públicos dos mercados e botecos. Instalado em um banheiro típico podia se ler notícias de um ano atrás.
Mas a programação diária do cinema não cabe mais no mundo moderno que, diga-se, a bem da verdade, conta com recursos muito mais rápidos, sofisticados e eficazes. Mas não têm o glorioso charme das letrinhas sobre papel. Outro dia, me peguei lendo um embrulho de jornal, que saudade.
Cinema havia para todos os gostos e posses. Do “Poeira”, como o Vitorinha, na Avenida Jerônimo Monteiro, ao mais sofisticado, como o São Luiz, do Edgarzinho Rocha, próximo ao Parque Moscoso, que alertava seu público antes do início da sessão com uma sinfonia de Tchaikovsky, hora de prestar atenção na tela e parar de paquerar e comprar balas e chocolates, que tinha como carro-chefe o Serenata de Amor.
A insubstituível habilidade de “contar o filme” reunia grupos e, muitas vezes, o repassador de cenas era muito melhor que o ator. Pelo menos, nós achávamos. Claro que havia os sempre presentes entendidos que se colocavam na frente dos julgadores do Oscar. Mas estava tudo bem. Nunca acertavam, mas a gente assistia ao filme duas vezes.
O público colaborava com essa paixão. Mal Charles Chaplin fazia uma cara triste, todo mundo “contracenava” chorando ou rindo conforme o caso. Quando o tema era terror, os espectadores gritavam.
Personagem jamais identificado era o imitador de miado agudo de gato no meio do filme, no cine Trianon de Jucutuquara, que chegou a interromper a projeção e acender as luzes muitas vezes.
Então.
Algumas vezes, o cinema também era porta de divulgação de músicas famosas.
Estimados leitores, agora que a Yoko Ono deu ao Paul McCartney pedacinhos de canções e combinações do grupo que formaram o fenômeno Beatles, temos graças à tecnologia de ponta a derradeira e bela construção musical “Now an Then”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda latindo sem sentido “All you need is love”, do quarteto de Liverpool.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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