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Paulo Bonates

Brincar é criar, e vale para qualquer idade

Os estranhos aparelhos sem vida própria substituem cada vez mais os quintais e os ventos. E as crianças perdem a fala própria e se submetem a um gozo cibernético que funciona, e muito bem, como censura da comunicação direta da família

Publicado em 15 de Outubro de 2019 às 05:00

Públicado em 

15 out 2019 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Pipa: brinquedo para fazer com as próprias mãos e estimular a criatividade Crédito: Arquivo AG

A escola inglesa de psicanálise deu ênfase ao brincar, em qualquer idade, como fundamento da criatividade e ao mesmo tempo do relacionar-se com objetos criados, isso na maior parte da infância e puberdade.

Assim é que longe dos brinquedos empurrados pelas fábricas de miniaturas do mundo adulto, some a individualidade do fazer com as próprias mãos, os fantásticos objetos de desejo. Senão vejamos. Papel de seda, um pouco de goma, talas de bambu, carretel de linha de variadas resistências – número um, zero, dois zeros – e uma crescente habilidade e fina atenção com as medidas e estava pronto o papagaio, a pipa, a carrapeta, conforme a região do Brasil, além das belas e coloridas rabiolas.

Em seguida, era só procurar o sentido e a direção do vento, que antes das cidades serem invadidas por incabíveis edifícios voavam ao ar as cores da criatividade. Essas peças da guerra do brincar não eram ingênuas. Continham o bem e o mal do ser humano. Muitas encastroavam giletes preparadas nas rabiolas, um eficiente instrumento de batalha.

Manobra daqui, manobra dali, uma vez no ar uma pipa que se prezasse cortava a linha de sustentação da outra, depois era só aparar, recolher com a sua. “O famão está no ar, pra cortar e aparar” era o canto de glória das batalhas aéreas.

A arma mortal era o cerol. Uma lata de cola quente e vidro moído, passado na linha e afinado com os dedos hábeis, aliada à capacidade de manobrar a pipa dando voltas na linha do próximo. E pronto, estava feito o ataque e a vitória final. Gritos e risos quando era você quem cortava. Choros e sussurros quando sua pipa tombava em batalha.

Rodar pião não era fácil, exigia manobras circenses. As meninas com suas bonecas de panos e casinha inventavam também modas e maneiras de pular corda, muitas vezes com velocidades incríveis. Estavam sempre criando conversas secretas, coisa de menina.

Até hoje não sei o que minhas primas falavam olhando para a gente e rindo. Menino não brincava com menina até certa idade. Depois era brincadeira que não acabava mais. Alguns poucos amigos brincavam de papagaio e de boneca, nunca prestávamos atenção, simplesmente porque não era da nossa conta.

Bolinha de gude. Bastava só arranjar um quintal ou um terreno baldio e os grandes campeonatos aconteciam com a participação dos patecões e das invejadas bolinhas bibianas. E as regras respeitadas. Saía até porrada em defesa da lei. Guerra de bicicleta era mais difícil. Elas eram caras. Hoje, acabou tudo isso. Os brinquedos vêm prontos e mal acabados dentro das geringonças tipo celulares. Não podiam se contentar em simplesmente telefonar sem se meter na brincadeira dos outros?

Não vou mais cansá-los. Todos vocês sabem de que estou falando. E olhem que nem toquei no assunto “carrinho de rolimã”, não é meu querido Alvaro Abreu, especialista no assunto?

Então. O gênio da pediatria e psicanalista inglês Donald Winnicott e sua mulher Claire dedicaram-se exatamente a isso. Em seu best-seller “Brincar e Realidade”, mergulham profundamente na questão. É brincando que se fazem as coisas e se apura o pensamento. E quanto a brincar sequer falei das peladas de quintal com as bolas números três e cinco da Superball e da Drible, lembram?

Os estranhos aparelhos sem vida própria substituem cada vez mais os quintais e os ventos. E as crianças perdem a fala própria e se submetem a um gozo cibernético que funciona e muito bem como censura da comunicação direta da família, substituída assim pelo ter a qualquer custo. Assalto cotidiano, por exemplo.

Vai passar. Se não passar, é porque já passou.

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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