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Psicanálise

A relação corpo-mente, o psicossoma, traz luzes e interrogações para a medicina

O conceito de medicina psicossomática é relativamente novo e sempre me pergunto se haveria uma “transicionalidade” por aí

Publicado em 26 de Julho de 2022 às 02:00

Públicado em 

26 jul 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Das coisas que ouvi do gênio Julio de Mello Filho, tiradas confessadamente do inglês Donald Winnicott, o conceito de Objeto Transicional foi o que mais me inspirou a pensar a relação self-objeto na práxis da psicanálise. O que acontece de tão especial no espaço entre duas pessoas que se dispõem a criar algo novo e melhor na vida de ambas.
Quase todos conhecemos objetos reais que adquirem significados e poder, as “manias”, peças de estimação inanimadas. Os travesseiros são muito populares nesse quesito, pois podem ficar “grudados” fisicamente ao dono acompanhando-o de uma maneira inexorável, inegociável.
Algo de desastroso ocorre no interior da pessoa possuidora da relíquia instaurada, se o objeto se perde ou foge do controle do dono. A mágica pode ocorrer com qualquer pessoa a partir do instante em que a alteridade torna-se consciente, mas não decifrada.
Meu querido Santo Agostinho, que fenômeno é esse que ocorre com uma pessoa, impregnando de um forte significado indecifrável? Uma amiga, quando criança e até os 17 anos de idade, possuía um travesseiro que batizou de “cheirinho”. Por que será, deixa pra lá. Os irmãos com o sadismo essencial das crianças costumavam torturá-la, escondendo-o e negociando sua devolução com suficiente maldade.
Tal travessura mortífera chegava ao requinte de obrigar a dona do objeto, digamos transicional, ir buscá-lo no teto com a justificativa imposta de que estava ali para espantar os mosquitos. Pura maldade, pura dependência desse sentimento inexplicável em direção a um travesseiro e sua fronha.
São incontáveis as ocorrências durante a vida de algumas pessoas, e um analista experiente pode tirar proveito terapêutico, muitas vezes, não necessariamente explicando ou interpretando o significado teórico do apego deste ou daquele objeto na vida de um cliente.
O espaço repleto de significantes entre terapeuta e cliente é preenchido pelo desejo de um e outro de praticarem, ambos, a direção da cura.
Julio de Mello, em um artigo denominado “A mente e sua relação com o Psicossoma” cita Winnicott e suas definições psicossomáticas – a Mente como parte do corpo .
O conceito de medicina psicossomática é relativamente novo e sempre me pergunto se haveria uma “transicionalidade” por aí. A relação corpo-mente, o psicossoma, traz luzes e interrogações para a medicina, mas é muitas vezes ignorado ou negado pela mesma, cheia de si.
Essa minha pretensiosa tentativa de ao comparar o fenômeno do Objeto Transicional com o Psicossoma, conceitualmente, talvez seja o meu próprio fenômeno transicional com esses elementos em busca de um achado psicoterápico a partir disso. Quem sabe?
Peguei alguns textos de Julio e começo a me dedicar à tarefa de deduzir algo não explicitado em seus escritos. Não que eu tenha visto. Segundo ele, Winnicott define separadamente o que é psicossoma e o que é mente. Discorre sobre duas entidades: uma é o psique-soma que é, por assim dizer, o que antecede à Mente, o que antecede ao funcionamento mental. A outra é a relação consciente-inconsciente transitando entre si maduramente e sem dor. Cabe ao terapeuta facilitar a função como um todo.
O conjunto é um operar mental precoce, imaturo, do primeiro ano de vida, em que haveria uma ligação muito mais intensa do corpo e mente, do que viria a ser posteriormente (aliás, a criança desenvolve nessa fase muito poucas doenças psicossomáticas, as localizações das ocorrências são, digamos, mais fixas na origem).
Ele chama de psique para distinguir de mente, porque a psique é, para Winnicott, a elaboração imaginativa das funções corporais. Isto é, são as imagens, as fantasias que a criança constrói a respeito das funções corporais, porque nesse primeiro, e até segundo ano de vida, ela vive essencialmente condições corporais fisiológicas, digestivas, respiratórias, e outras, como o movimento dos braços e pernas, por exemplo.
Em dado momento, Winnicott diz que o mais importante, quem sabe, é quando ele define, com infinita sabedoria, a clássica função mental do bebê completando as insuficiências da mãe. Isso pode ser observado a olho nu no mamar em diversos estilos.
É um milagroso exemplo, até chegar a tal ponto que tudo se passa como se a mãe não precisasse existir nesse clímax de interação. A mãe incorpora a função materna, só ajudando. Senhoras e senhores, e assim será pelo resto da vida: um verdadeiro. O bebê inclui dentro de si - ou/e do terapeuta - a realidade total do Sujeito.
Talvez seja essa a mágica da vida de relação.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, aparece mordendo uma almofada.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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