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Crônica

Sonho meu: eu no berço do samba com Noel Rosa

Cantor e compositor  marcou de forma definitiva a história da música popular brasileira com a miscigenação do samba, com um sotaque das percussões do morro, com surdo, tamborim e cuíca e com muita poesia

Publicado em 19 de Julho de 2022 às 02:00

Públicado em 

19 jul 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Não sei se vocês assistiram ao filme “Yesterday”, de Danny Boyle. "Vou te contar", como diria Cariê. Em uma pequenina cidade da Inglaterra, Suffolk, um modesto compositor e cantor, depois de sofrer um leve acidente, retoma os sentidos e de repente é o único ser humano na Terra a conhecer e saber cantar as músicas dos Beatles.
Após o susto, durante a confusão mental, começa uma trilha fantasmática extensiva aos espectadores – aliás o roteiro do filme. Ao se apresentar mundo afora, incluindo o tradicional estádio de Wembley, o Millennium Stadium, no País de Gales, e Los Angeles, o pobre músico teve que enfrentar a crença mundial de que ele era o único beatle na Terra. Maravilhoso delírio.
A película foi um gigantesco empreendimento de filmagem. Finaliza com uma cena entre a personagem e John Lennon, interpretado por um certo Robert Carlyle, com a mesma idade, 78 anos, que o beatle teria se não tivesse morrido. Um espetáculo.
Fiquei a delirar.
Imagino sonhar, acontecendo comigo No caso, com perdão da paixão beatlemaníaca, escolho acordar Noel Rosa. Poderia ser Elis Regina, Paulinho da Viola, Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso... mas não é.
Antonio Carlos Jobim foi quem me deu a ideia da escolha da encarnação musical, se houvesse: “Poucos compositores cantaram o Rio melhor que Noel. O Rio das gírias, dos costumes, da malandragem, da graça, da delegacia de polícia, do revólver, do xadrez, do Tarzan, dos bairros, da querida Vila Isabel”.
Deu-se a mágica empurrada pela memória do meu coração vagabundo, mas a lembrança de Noel foi cantada para mim por Maria da Conceição, dona Mariucha, minha mãe, em prosa e verso durante a infância e adolescência.
Ninguém percebeu, mas vivi décadas sem sair da varanda.
Transporto-me para 1916, quando a casa da baiana Ciata, na Cidade Nova, era uma referência para os músicos, principalmente negros e mestiços. Lá, Donga, filho de outra baiana, Tia Amélia, percebeu que um estribilho cantado nas rodas de música poderia virar samba. Assim nasceu “Pelo telefone”, em parceria com o jornalista Mauro de Almeida, que formalizou a autoria no universo do samba e, pelo sucesso, entrou para a história como um marco na longa caminhada do gênero.
E assim como essa composição que “estabeleceu a data de nascimento do samba”, nasceu a trajetória de Noel Rosa, que marcou de forma definitiva a história da música popular brasileira com a miscigenação do samba, com um sotaque das percussões do morro, com surdo, tamborim e cuíca, e com muita poesia.
Eu estava sonhando lá neste momento e o tempo não deve satisfação a ninguém.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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