Na última segunda-feira (10), o presidente Donald Trump assinou o decreto que estabelece tarifas de 25% sobre as importações de aço e alumínio nos Estados Unidos. A medida entra em vigor a partir de 4 de março e pode afetar o Brasil, que é um dos maiores produtores mundiais e o segundo maior fornecedor de aço para os Estados Unidos, sendo superado apenas pelo Canadá.
Nas últimas semanas, o governo Trump já havia imposto 25% para as importações vindas do Canadá e México. Essa seria uma estratégia para pressionar tais países a reforçarem seus controles de fronteiras com os limites territoriais norte-americanos. Na sequência, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, e a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, apresentaram ações de reforço às fronteiras com os Estados Unidos. Dias após ao polêmico anúncio, o presidente norte-americano suspendeu por 30 dias as tarifas sobre esses dois países vizinhos.
Essas estratégias protecionistas de Trump são conhecidas pelo mercado internacional. Primeiro vem o anúncio de uma medida polêmica que proporciona um ambiente de instabilidade. Em seguida, busca impor condições mais favoráveis para os Estados Unidos nas negociações com as nações impactadas.
Entretanto, o histórico do primeiro governo Trump (2017-2020) demonstra que tais medidas protecionistas não se sustentaram por muito tempo. Em março de 2018 foi estabelecida uma taxa de 25% sobre todas as importações de aço para os Estados Unidos. Naquela ocasião, o governo norte-americano isentou Canadá e México das taxações. Isso abriu a possibilidade para que outras nações demandassem a inclusão em uma lista de exceção. O Brasil solicitou essa inclusão e foi aprovado. Em agosto de 2018, os Estados Unidos procederam uma flexibilização nas taxações para a importação de aço.
Se essa era uma medida implementada para privilegiar a economia estadunidense, por que não foi mantida pelo governo Trump? Nas últimas décadas, existem outros episódios nos Estados Unidos de elevação das tarifas de importação?
Antes dos governos Trump, em 2002, o presidente George W. Bush impôs taxações sobre as importações de aço e alumínio, por entender que os países exportadores operavam preços abaixo do custo, o que colocava supostamente as empresas estadunidenses em desvantagem.
De acordo com um estudo produzido pelo doutor em economia Joseph Francois, em coautoria com a executiva e pesquisadora Laura Baughman, essa taxação do governo Bush gerou efeitos negativos internos, chegando a aumentar o desemprego nas indústrias que importavam aço para produzir bens duráveis.
“Essas tarifas, combinadas com outros desafios presentes no mercado na época e nos meses seguintes, elevaram os custos do aço, prejudicando as empresas americanas que utilizam esse material para fabricar bens nos Estados Unidos”, segundo a pesquisa mencionada.
Conforme assinala o estudo, naquele período, aproximadamente 200 mil pessoas perderam seus empregos nos EUA por conta da elevação dos preços do aço. Tais impactos negativos repercutiram em cerca de US$ 4 bilhões em salários perdidos entre fevereiro e novembro de 2002. “Todos os estados dos EUA sofreram perdas de empregos devido aos altos custos do aço, com as maiores perdas ocorrendo na Califórnia (19.392 empregos), Texas (15.826) e Ohio (10.553)”.
É fato que o tarifaço de Trump tem o objetivo de fortalecer os Estados Unidos, contudo essa medida tende a gerar efeitos indesejados para os norte-americanos, conforme é demonstrado pelas evidências científicas. Insta salientar que a elevação de tarifas tende a impactar os preços dos produtos importados, o que acaba pressionando a inflação.
Consequentemente, o Fed (Federal Reserve, Banco Central dos EUA) pode se ver obrigado a elevar os juros visando conter a inflação. Hoje o índice de preços estadunidense já se encontra acima da meta anual de 2%. Isso acaba impactando negativamente as empresas, o custo de vida e o consumo das famílias. Essa conjuntura pode desacelerar a economia norte-americana.
Nesse sentido, constatamos que as tarifas impostas pelo governo Trump, embora apresentadas como uma estratégia para fortalecer a economia dos Estados Unidos, podem gerar efeitos adversos significativos. O histórico de medidas protecionistas demonstra que tais ações tendem a elevar os custos de produção, prejudicando indústrias que dependem de insumos importados, aumentando o desemprego e pressionando a inflação.