A recente megaoperação deflagrada na capital fluminense trouxe à tona, mais do que confrontos e números, o espelho de uma sociedade que, em um país caracterizado pela divisão e radicalização política, encontra no medo da insegurança pública um ponto de convergência. Entre o clamor por ordem nas ruas e o debate sobre os meios para alcançá-la, emerge a voz de uma população que, apesar das diferenças, manifesta respaldo à ação de Estado contra o crime organizado.
Segundo o levantamento do instituto AtlasIntel, que ouviu mais de mil pessoas, a opinião pública nacional é majoritariamente favorável, a saber, 55,2% dos brasileiros aprovam a operação policial voltada ao desmantelamento da facção Comando Vermelho, enquanto 42,3% se declaram contrários. Na cidade do Rio de Janeiro, esse apoio se eleva, onde 62,2% endossam a operação. Nas comunidades cariocas, o apoio adquire dimensão mais vigorosa, onde 87,6% dos moradores manifestam aprovação, contra 12,1% que desaprovam a megaoperação.
O que esses números significam? Em âmbito nacional, há uma maioria que apoia a megaoperação; no Rio de Janeiro a aprovação se consolida com maior vigor, e nas favelas, onde a violência cotidiana e o domínio territorial de organizações criminosas são realidade concreta, a aprovação ganha expressividade elevada. Em outras palavras, quanto mais direto o impacto do crime organizado na vida urbana, no sentido material de escassez de liberdade, medo e cerceamento, tanto mais intensa é a adesão à resposta estatal. É um retrato da geografia da insegurança e do medo do crime.
Esse fenômeno é sintomático do Brasil contemporâneo. Mesmo em meio às divergências políticas profundas, o temor da violência e o desejo pela segurança pública se tornam motores de união da população. O quadro mostra que a segurança pública permanece como pedra de toque possível de convergência, não por coincidência, mas por necessidade.
Para que essa convergência produza resultados duradouros e não apenas efêmeros, é relevante a implementação de estratégias complementares que devem se articular à megaoperação da última semana:
- Integração ampliada das forças policiais, inteligência e tecnologias, operações em larga escala precisam estar conectadas a sistemas de informação, cooperação entre polícias civil, militar, federal, rodoviária federal, científica, penal e guardas municipais, uso de tecnologia de ponta (drones, georreferenciamento, big data, centros integrados e de inteligência e análise telemática), com consolidação da integração entre esferas federal, estadual e municipal.
- Repressão qualificada e inteligência policial sobre fontes financeiras das facções e milícias. Não basta enfrentar a superfície do crime, é preciso atacar as linhas de abastecimento, lavagem de dinheiro, ramificações logísticas e infraestrutura criminosa que sustentam o poder territorial desses grupos.
- Implementação de políticas públicas de prevenção ao crime, segurança não se faz apenas com operações. Elas são fundamentais, mas devem ser combinadas com ações no campo da educação, emprego, cultura, urbanismo inclusivo, ordenamento territorial, saneamento básico, iluminação e transporte seguro. A presença estatal constante é essencial para que as comunidades se desvinculem da lógica do domínio criminal e reencontrem a cidadania.
Se a população, em especial aquelas mais expostas à violência, demonstra respaldo à ação emergencial, cabe agora ao Estado converter esse apoio em políticas sistemáticas e articuladas. A operação da semana passada tem impacto simbólico e prático, mas o verdadeiro desafio será manter o ritmo, articular os níveis federativo e local, e garantir que o ambiente que inspirou o apoio não seja apenas momentâneo, mas se converta em transformação estrutural.