Chamou-me a atenção uma entrevista recente, feita ao jornal Valor Econômico, do articulista da revista Financial Times, Martin Wolf, que ao abordar o cenário de reorganização de cadeias econômicas globais, especialmente nas suas bases de suprimentos, cita primeiramente o México, mas também sugere espaços de oportunidades abertos ao Brasil. E, nesse segundo caso, porque não pensarmos no Espírito Santo?
Depois do Amazonas, o Espírito Santo é o estado brasileiro que apresenta sua economia mais aberta. E isso tanto em relação ao mercado externo, quanto também ao mercado interno. Os últimos dados do IBGE (2018) relativos ao quadro de “Recursos e Usos” das economias estaduais apontam o Espírito Santo com um percentual de abertura no patamar de 170%, contabilizando-se nesse caso a soma de comércio internacional e interestadual em relação ao PIB. Amazonas chega a 180%, para uma média nacional de 107%. Os números mais atuais são ainda bem mais significativos.
Mas é sobretudo no comercio internacional que o Espírito Santo se destaca e é apenas suplantado por Mato Grosso, que conta com a força das exportações do agronegócio: 42% para o Espírito Santo, contra 57% de Mato Grosso. E é onde as novas oportunidades para o Espírito Santo poderão ser acessadas. Favorece-nos, nesse caso, o fato de China e Estados Unidos serem nossos maiores parceiros comerciais.
A pandemia de Covid-19 seguida pela guerra entre Rússia e Ucrânia estão provocando mudanças profundas nas estruturas das cadeias globais, por conta de inseguranças que vieram à tona nas principais bases de suprimentos de insumos, materiais e produtos, com destaque para a China.
As pontas e segmentos intermediários de grandes cadeias estão hoje em busca de bases mais confiáveis e estáveis de suprimento. No jargão do “big business” grandes multinacionais estão em busca de fornecedores mais próximos (“nearshoring") e mais amigos (“friendshoring”).
E é nesses vácuos de oportunidades que o México hoje se coloca na ponta, a despeito da política pouco “friendly” do seu presidente Lopez Obrador aos negócios. É por isso que grandes empresas como Tesla, BMW, dentre outras, estão lá se instalando, principalmente pela proximidade do maior mercado, os Estados Unidos. O Brasil pode entrar nessa concorrência, mas precisa acertar os passos com a competitividade com convicção e celeridade.
O Espírito Santo tem agora, num cenário que associa proximidade – nearshoring – e amizade – “friendshoring”–, a perspectiva de potencializar a sua posição geográfica estratégica nos contextos internacional e nacional e já dispõe de uma boa base produtiva já conectada internacionalmente e nacionalmente. Além das commodities petróleo, minério de ferro, celulose e aço, temos a WEG, Marcopolo, Jurong e outras mais, um bom parque industrial de rochas ornamentais.
No entanto, logística, especialmente para o Espírito Santo, é crucial para se avançar nessa frente de oportunidades, além naturalmente os desafios do “custo Brasil” e de um ambiente geral de negócios – “business friendly” – que precisa melhorar muito ainda.