Que as expectativas desempenham papel importante nas decisões presentes dos agentes econômicos não temos dúvida. A questão é que em algumas ocasiões, que podemos avaliar como não tão recorrentes, portanto, classificáveis como raras, as expectativas podem vir descoladas ou descompassadas do que poderíamos chamar de realidade objetiva, ditada pelo mundo real, no dia a dia. É o que nos parece estar acontecendo no momento, quando o mercado antecipa-se precificando 2022, mas age já de olho em 2023.
Com isso quero dizer, por exemplo, que os cenários econômicos projetados hoje pela média do mercado mostram-se mais carregados ou influenciados por expectativas que vão além de um ano eleitoral em 2022, do que poderiam estar efetivamente demonstrando as condições objetivas da economia real. Constatação que evidencia o enorme peso que terá o evento da eleição, e nela, especificamente, a economia.
Esse “estado de expectativas”, que em boa medida podemos vê-lo como resultante do “estado de desconfiança” que nos parece já dominante no sistema econômico, pelo menos no momento, projeta um 2022 de resultados presumidamente certos. Quais sejam: crescimento baixo ou até nulo, inflação mantendo-se alta até meados do ano, juro básico em torno de 12%, desemprego alto, investimento em baixa, massa de renda perdendo poder de compra. Em síntese, um cenário nada agradável.
Será esse o cenário mais provável que se configurará até a eleição em outubro do próximo ano. Um cenário que, convenhamos, mostra-se pouco dosado pela racionalidade, mas sim mais pelo sentimento dominante de um “estado de insegurança”, caracteristicamente de ausência de “ancoragem” em referenciais mais sólidos de sustentação. Um cenário que faz pausar ou mesmo retrair o principal motor de uma economia, os investimentos.
Se de um lado o mercado já está de olho em 2023, naturalmente à espera do desfecho da eleição em 2022, do outro, o eleitor certamente decidirá o seu voto com o olhar para a economia. E esse olhar do eleitor, sem dúvida decisivo, nem estará focado tanto no PIB, algo meio abstrato para grande maioria, mas sim para as questões que o tocam diretamente e mais fortemente, como a inflação, o emprego, a renda que de fato entra no seu bolso e a fome. Nesse aspecto, podemos antever até racionalidade no votar: a racionalidade do dia a dia, a racionalidade da sobrevivência e da subsistência.