Independentemente de quem vença as eleições em outubro, sabemos que a “rebordosa” virá no próximo ano. E, nesse aspecto, o “mercado” parece não estar comprando a ilusão suportada por um crescimento da economia que podemos caracterizar como momentâneo e de certa forma um tanto quanto passageiro, neste ano.
Ou seja, estamos diante de um cenário de curtíssimo prazo adredemente construído para se vender a narrativa, naturalmente para o eleitorado, de que a economia está a caminho do “paraíso”. Um cenário com data de vencimento em 31 de dezembro deste ano.
Isso posto, fica claro que o “mercado”, na sua visão sempre pragmática, já nem se preocupa ou se ocupa tanto com possíveis desfechos este ano. Os olhares já estão focados no próximo ano, e com olhos bem abertos. E nesse aspecto, na leitura sob meu alcance, já nem contaria mais o fato de vencer o candidato A ou B. Que, se mantidas as condições atuais de polarização, teremos certamente Bolsonaro ou Lula. Chances para uma terceira via são vistas como remotas.
Se do lado do “mercado” os olhares estão postos em 2023, para Lula e Bolsonaro, os dois candidatos pareados e isolados na frente nas pesquisas, o próximo ano é colocado em segundo plano. Do lado de Bolsonaro, fica claro que a “farra” das benesses funciona como uma espécie de anestesiante da crise, empurrando seus efeitos para frente. Do outro lado, Lula também pouco sinaliza na direção de um projeto para o futuro do país, e certamente será cobrado por erros cometidos no passado e ainda presentes no imaginário dos eleitores.
É muito improvável que tenhamos no período da campanha eleitoral um debate construtivo, por exemplo, sobre a questão fiscal, ponto considerado crucial especialmente para o próximo ano. Não esqueçamos que boa parte dessas benesses fiscais e econômicas em vigência hoje tem limite temporal definido até o final deste ano. Portanto, não há previsão de respaldo orçamentário para o próximo ano. Os dois principais candidatos se postam favoráveis à continuidade.
Da parte do governo federal, a única autoridade a levantar a questão fiscal como tema central a entrar na pauta dos debates nas eleições foi o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Até porque o problema vai sobrar para ele, pois o seu mandato ultrapassa o período de mandato do presidente da República.
Como no Brasil tudo o que se cria de temporário se transforma em permanente, Neto já prevê que o “rombo” fiscal poderá ser bem maior do que o próprio governo estima, exigindo no próximo ano mais “arrocho” monetário. O que não é bom para a economia e nem para o próprio governo.