Penso que a questão que se coloca em relação ao fenômeno que está sendo chamado de desindustrialização deva ser relativizado. Ou seja, uma coisa é o que podemos observar de movimentos que ocorrem entre países e blocos econômicos, quando alguns avançam mais que outros nos seus processos de industrialização. Outra coisa diz respeito ao que vem causando os processos de transformação tecnológica e de inovação, ainda não captados pelo arcabouço universalmente utilizado de contabilidade social no cálculo da produção de riqueza e suas composições, o PIB – Produto Interno Bruto.
Vamos por etapas. No primeiro caso estamos lidando com um processo que é inerente ao que podemos chamar de relocalização ou reposicionamentos de capacidades competitivas. Algo que não é novo e tem se mostrado mais fortemente presente nas eclosões das várias revoluções industriais.
E assim a história econômica nos mostra como a industrialização passa da Inglaterra para a Europa Central, para a Alemanha, depois os Estados Unidos, na sequência o Japão, e no presente momento vemos a Ásia, com China hegemônica, mas também sem esquecermos da Coreia do Sul.
Como a indústria no nosso imaginário de consenso sempre foi vista como sinônimo de desenvolvimento, a expressão “desindustrialização” passou a sinônimo de “problema”, para não dizer fraqueza. E seu oposto, por óbvio, seria então a reindustrialização. Que aliás vem se tornando a narrativa de consenso não somente no Brasil, mas especialmente no Brasil.
A forma de analisarmos essa desindustrialização relativa é observarmos como se comportam os componentes das pautas de exportação e importação. E aí vamos ver que no caso do Brasil e também em boa parte dos países considerados menos desenvolvidos, vem caindo as exportações de produtos com maior valor agregado, tipicamente industrializados, e aumentando relativamente a importação de produtos de maior valor agregado. Alguns especialistas chamam isso de “primarização” da pauta de exportação.
Já no segundo caso, o que denomino de “desindustrialização relativa”, como dito no início, diz respeito a questões de natureza tecnológica e advém de transformações estruturais profundas nos processos produtivos e nas formas de organização, não captadas pelos tradicionais conceitos e métodos de cálculo da produção da riqueza social.
Estamos observando, por exemplo, uma industrialização e terceirização da produção agropecuária e ao mesmo tempo uma terceirização da indústria. Movimentos não captados no cálculo do PIB e sua composição.
Problema que percebemos quando analisando o PIB capixaba de 2020, a título de exemplo, e vemos que o setor agrícola teve uma participação de apenas 4,5%. Literalmente é o PIB de “porteira fechada”. No entanto, se passamos para o conceito de PIB do agronegócio a participação se eleva a 28%.
Fenômeno parecido acontece na indústria que vem perdendo gradativamente atividades que lhe eram internas. É o caso da logística, que é serviço, dentre outras. Isso explica em boa medida quedas no valor da produção industrial e concomitante aumento na produção de serviços. É o que damos o nome de terceirização.
Esse segundo caso de “relativismo” merece aprofundamento pois encontra raízes em teorias, conceitos e práticas geradas entre as décadas de 30 e 50 do século passado. Ou seja, em outra economia.