Certamente, poucos sabiam da existência da Evergrande. Naturalmente, com a exceção de quem opera em mercados globais. Pelo nome, a dedução mais óbvia recairia sobre nome de alguma empresa supostamente do Ocidente e com grande chance de ser americana.
O que a maioria dos mortais não sabia é que se trata de uma gigantesca empresa chinesa que carrega a maior dívida do mundo e que, ao ameaçar não pagar por simples falta de recursos para tanto, vem provocando abalos em ondas e em escala global, atingindo a maioria das bolsas de valores, inclusive a brasileira.
Alguns mais extremados em suas opiniões chegam até a buscar semelhanças com o ocorrido na crise de 2007-08, quando estourou a bolha imobiliária americana que levou o banco Lehman Brothers à falência, que por efeito dominó arrastou tantos outros para o mesmo fim. Seria um exagero a comparação.
Mas o caso da Evergrande não deixa de trazer a tona essa lembrança, principalmente pelo fato de ter como origem a geração fictícia de riqueza por meio de endividamento excessivo, mecanismo denominado também de alavancagem.
A China descobre agora que boa parcela de sua riqueza e do seu elevado crescimento econômico foi sustentado por altíssimas taxas de investimentos, com boa parte dos quais pela via do endividamento. Caso bem próprio do mercado imobiliário, que agora se depara com restrições de demanda, provocando assim queda ou mesmo ruptura no ciclo de receitas, no tempo. O temor é de que mais empresas do setor se encontrem na mesma situação da Evergrade. Aí o problema passa a ser sistêmico.
É importante ressaltar que o Grupo Evergrade, com maior atuação no setor imobiliário, mas também atuando em vários outros segmentos, é responsável por cerca de 2,5% do PIB chinês. Imaginemos o estrago que causaria a sua falência na economia chinesa e na economia mundial, inclusive na economia brasileira, com redução principalmente de importação de produtos como minério de ferro e produtos do agronegócio.
Assim, o dilema chinês, num primeiro momento e mais imediato, está em deixar que o mercado por si só resolva o problema, ou o Estado promova intervenções que possam salvar a empresa. A segunda opção parece ser o caminho mais fácil. Bastaria disponibilizar recursos, que em principio estão acessíveis.
No entanto, o dilema-chave, e bem maior, a ser enfrentado por aquele país diz respeito a uma questão bem mais ampla e estrutural. Relaciona-se à necessidade de se enfrentar, ou mais precisamente equacionar, o problema da super alavancagem do crescimento. Nesse caso, o problema não estaria restrito apenas ao setor imobiliário. A Evergrande seria apenas a parte mais visível do dilema. O dilema maior está nas opções de dosagem do crescimento da economia.
E, nesse aspecto, um cenário mais provável é de que a China deverá optar por uma política de impor freios a um crescimento mais acelerado, reduzindo a alavancagem. Opção que implicará em impactos também no crescimento global.