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Análise

A outra 'face da moeda' da economia capixaba

Dois olhares sobre os números relativos ao PIB (Produto Interno Bruto) do Espírito Santo

Públicado em 

26 nov 2022 às 02:00
Orlando Caliman

Colunista

Orlando Caliman

Os números relativos ao PIB (Produto Interno Bruto) capixaba para o ano de 2020, anunciados pelo IBGE e IJSN (Instituto Jones dos Santos Neves) na semana passada, não surpreenderam. A se considerar o potencial de impacto esperado por conta da pandemia da Covid-19, o estrago não foi tão significativo, embora um pouco acima da média nacional, com queda de 4,4% contra 3,3% da economia" class="link" target="_blank">economia nacional.
Mas, o que merece atenção e uma análise mais apurada diz respeito ao desempenho da economia capixaba no ano de 2019. Naquele ano, o PIB do Espírito Santo apresentou queda de 3,8%, enquanto a economia nacional cresceu 1,2%. Numa comparação bienal, vamos ver que nossa economia sofreu uma queda muito mais acentuada: queda de 8,2% contra também queda de aproximadamente 2,1% da economia do país.
Se para 2020 a explicação para a queda parece-nos óbvia, o mesmo não podemos afirmar em relação a 2019. Teríamos aí, então, algum fator diferenciador a influenciar. Para quem vem acompanhando a economia capixaba por cinquenta anos, a leitura e explicação tornam-se bem mais simples. Temos nesse caso a expressão de uma característica que lhe é bem particular: o peso das commodities. Sobretudo das commodities que fazem parte das atividades extrativas minerais, tais como minério de ferro e petróleo.
Observadas essas atividades sob a ótica da produção, vamos ver que estas apresentaram quedas acentuadas em 2019 e 2020: 30% e 20%, respectivamente. Contrasta, por exemplo, com o setor de serviços, que responde por cerca de 70% do PIB, que apresentou crescimento de 1,6% em 2019 e queda de apenas 2,9% em 2020, menor do que a queda registrada no PIB total. Fica claro, assim, que o desempenho da economia em 2020 foi também contaminado pelo efeito commodities, leia-se, “extrativa mineral”.
É importante que se atente para o fato de estarmos analisando até aqui apenas uma “face da moeda” da questão. Ou seja, com o olhar focado na produção de riquezas, e no que esta agrega de valor econômico para a sociedade em termos de bens e serviços. Já um outro olhar, este sobre como esse valor é repartido – ótica da renda gerada -, pode nos mostrar especificidades interessantes da nossa economia.
Do lado da renda gerada podemos observar três agregados: remuneração do trabalho, impostos sobre produção e excedente operacional bruto (lucros, dividendos etc). O grupo de “remuneração”, que inclui salários e contribuições sociais, cresceu, em termos nominais, cerca de 6% em 2019, e representou algo em torno de 39% do PIB; impostos cresceram 8%, enquanto o excedente teve queda de 7%.
O que esses últimos números nos revelam é que quando temos queda do PIB por conta de crises nas commodities, os efeitos negativos recaem quase que exclusivamente no componente excedente operacional bruto, praticamente não afetando o componente remuneração. Tanto isso é verdade que o volume do comércio cresceu 4,7%, ou seja, em termos reais, e os serviços 1%, em 2019.
Uma leitura mais correta da economia capixaba sempre requer olhar o outro lado da moeda.

Orlando Caliman

É economista. Analisa, aos sábados, o ambiente econômico do Estado e do país, apontando os desafios que precisam ser superados para o desenvolvimento e os exemplos de inovação tecnológica

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