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Crônica

Tipo Harlley

Se por acaso você amar uma mulher selvagem... Bem, se isso acontecer, então simplesmente não vai mais ser possível se manter anestesiado

Publicado em 20 de Setembro de 2020 às 09:00

Públicado em 

20 set 2020 às 09:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mulher com estilo selvagem
Escolher ser sexual e romanticamente íntimo de uma mulher desperta exige coragem masculina para caminhar sem medo para o desconhecido Crédito: Shutterstock
Nota: esta crônica é uma livre reinterpretação do famoso poema de Sophie Bashford.
Se por acaso você amar uma mulher selvagem... Bem, se isso acontecer, então simplesmente não vai mais ser possível se manter anestesiado.
Claro, é sempre mais confortável amar uma mulher que ainda não ativou seus poderes sagrados. Primeiro, porque ela não vai desafiar você; nem vai te pressionar para se tornar a Maior versão de si mesmo; nem vai despertar no seu espírito a percepção que há muito, muito mais pra ser vivido...
Ora, uma fêmea anestesiada é ideal porque ela não dá trabalho... Aliás, ao contrário, ela é um conforto para o ego masculino, porque sublinha no homem seu “papel clássico”. Na verdade, ter uma fiel companheira de jornada é uma bênção, isso é certo! Por isso, se for este o seu caso, ame essa mulher. Ame de todo o coração e seja fiel. Honre a presença feminina que nutre a vida de forma amável e pacífica.
Mas se, por acaso, você encontrou mulher selvagem... Então se prepara!
Fique sabendo que você está recebendo um chamado da sua própria alma. Talvez não seja uma escolha consciente, mas se acontecer de você entrar no campo e no corpo de uma mulher cuja magia já foi ativada, então seu espírito está te convocando para uma jornada de crescimento (no mínimo arriscada).
Uma vez em contato com o feminino selvagem, o invisível te tira pra dançar (lambada!).
Intrépido é o homem que se envolve sexual e romanticamente com uma mulher desperta... Porque nem ela sabe ao certo para onde está indo, apenas segue o fogo do próprio espírito e vai, ela cresce. Mas também colhe e distribui recompensas para além da compreensão da mente.
Uma mulher selvagem tem olhos amplos, por isso vai te ver como você nunca foi visto antes. E porque confia no próprio instinto, ela vai confiar em você; ela vai te receber e te acolher como um guardião do seu fogo sagrado; vai abraçar seus ciclos e suas sombras, porque é isso que ela se acostumou a fazer consigo mesma; e ela vai amar desmesuradamente numa língua que só sua alma vai ser capaz de entender.
Uma mulher selvagem tem os sentidos expandidos –– faro, tato, mira, escuta, papilas... Tudo a faz amar com tanta presença e intensidade que seu corpo e coração naturalmente se dispõem, se entregam, se abrem para a experiência de se sentirem amados por uma fera –– que, por prazer e devoção, tanto se submete quanto pode ser indomável.
Pensando bem, amar uma mulher assim não é exatamente uma escolha... Está mais para uma sorte do acaso, uma abertura, um encontro do encontro! Porque só pode ser da ordem do milagre isso de viver com a alma em chamas.
Finalmente, se acontecer com você, não pense. Arrisque-se!
Mas... Se sua mente comparecer e te puser medo, e te convencer a dar um passo atrás, e te fizer escolher uma vida mais segura, mais tranquila, mais confortável, morninha... Tudo bem.
Apenas fique sabendo: esse é um encontro raro. Cintilante... Uma espécie de cometa Harlley.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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