Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Política

Bolsonaro empurra culpa de recessão para governadores e prefeitos

Se as medidas de isolamento funcionarem, presidente pode alegar que crise sanitária era "histeria". Se não funcionarem, poderá dizer, diante da crise econômica, que governos estaduais e municipais instauraram o caos

Publicado em 31 de Março de 2020 às 09:59

Públicado em 

31 mar 2020 às 09:59
Marcus André Melo

Colunista

Marcus André Melo

Coletiva à Imprensa do Presidente da República, Jair Bolsonaro e Ministros de Estado.
Coletiva à imprensa do Presidente da República, Jair Bolsonaro, e ministros de Estado. Crédito: Marcos Corrêa/PR
A crise sanitária move as placas tectônicas da política no país, afetando tanto seu conteúdo substantivo (a agenda) quanto a forma (estilo de governança). A pandemia de coronavírus vertebra a disputa política em torno de uma nova dimensão: como lidar com a emergência sanitária e suas consequências econômicas. A agenda pública torna-se monotemática. Saem de cena as questões que levaram à ascensão de Bolsonaro: corrupção, segurança pública e guerras culturais.
A forma também muda: já não há lugar para o estilo adversarial de governar. A retórica não desaparecerá, mas sua eficácia se reduzirá brutalmente. Estratégias de culpabilização e confronto terão claros retornos decrescentes. O senso de emergência produzido por uma ameaça avassaladora aumenta a demanda por lideranças que tenham capital moral e capacidade para coordenar ações e construir consensos na sociedade em geral e na comunidade de especialistas. A popularidade das lideranças políticas tende a crescer em toda parte em situações de guerra ou ameaças externas —fenômeno conhecido no jargão como "rally round the flag" (união pela pátria). Bolsonaro, no entanto, passou a ser visto ele próprio como ameaça.
Isso não significa que o estilo adversarial desaparecerá. Identifico três fatores que combinados explicam sua adoção no momento. O primeiro é o mimetismo institucional em relação a iniciativas tomadas por Donald Trump —uma das marcas de seu governo e de sua entourage familiar, que já se manisfestara na semana anterior no episódio envolvendo a China. Ele aparece na importação da disjuntiva saúde versus economia que dominou a agenda pública americana nas semanas anteriores.
O segundo é o cálculo por parte de setores estratégicos do governo de que o fator sistemicamente desestabilizador não seria a escalada da crise sanitária per se, mas uma recessão profunda e colapso da ordem social.
O terceiro é uma estratégia de deslocamento da culpa em relação aos custos políticos da profunda recessão que se avizinha para governadores e prefeitos. Curiosamente, estes não são os únicos sujeitos da transferência de responsabilidade: o presidente dirige pedidos ao seu ministro da Saúde, a quem buscaria sensibilizar, em mais um exemplo de "presidencialismo de delegação". (O resultado é profunda dissonância: quem está no comando? Qual a mensagem?)
Essa transferência de responsabilidade é instrumental: se as medidas de quarentena forem bem-sucedidas, o presidente ganha: poderá alegar que a crise não era tão grande quanto propalado. Se forem mal sucedidas --em quadro de profunda crise econômica e sanitária-- sustentará que contribuíram para a instauração do caos.

Marcus André Melo

É professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante da Universidade de Yale.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Flávio Bolsonaro, senador
Flávio Bolsonaro promete criar 500 mil vagas em presídios em 4 anos e zerar déficit carcerário
A marca apresenta McOferta com blister de molho do Big Mac em edição limitada
Mcdonald’s traz grandes craques da Copa do Mundo em campanha com McOferta especial em copos exclusivos
Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e senador Jacques Wagner
Alcolumbre é solidário a Jaques Wagner: 'Todos temos que ter presunção de inocência'

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados