Parece que foi ontem que a conheci. Foi durante umas férias escolares, quando vim a Vitória passar uns dias na casa de vovó Melinha. E foi amor à primeira vista. Mesmo sendo você doze anos mais velha do que eu, a flecha do cupido acertou-me em cheio. Daí pra frente não nos separamos mais. Cresci, me formei e comecei a trabalhar sempre com você ao meu lado. E como saracoteamos pela vida afora! Onde tinha alegria, lá estávamos nós.
Não sei se você se lembra quando fomos ao Santa Cecília assistir “O Prisioneiro de Zenda”. Um filmaço com Stewart Granger lutando espada como nunca mais vi outro igual. A gente saiu do cinema, atravessamos a Cleto Nunes e fui matar a sede na água que brotava do bebedouro de cimento, disfarçado de tronco de madeira, ali na entrada do Parque Moscoso. A água cristalina vinha lá de cima do Morro da Fonte Grande. Parece mentira...
Em todos os cantos por onde andei, minha querida, estávamos sempre juntinhos. Tá lembrada quando meu saudoso amigo Paulo Milled, ainda namorando Vera, desceu de seu Mustang na animadíssima porta da boate Chalé, em Guarapari, sacudindo a galera, metido dentro de uma inesperada minissaia? Paulo sabia se divertir e nos divertir.
Lembra quando fomos juntos a Belo Horizonte assistir ao show do Chris Montez? “The more I see You”? Inesquecível! E quantos bailes dançamos por aí... no Clube Vitória, no Saldanha da Gama, no Álvares Cabral, no Náutico Brasil, no Praia Tênis, no Libanês, na Arci, na Fafi... hein? Estávamos em todas. Eu, você, um punhado de boleros e de cuba libres. Não perdemos nenhum Galeto Dançante do Iate Clube. Ah... como éramos felizes e como sabíamos muito bem disso...
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Jamais esquecerei daquela manhã no Rio de Janeiro. Meu pai, eu e você na Avenida Rio Branco, assistindo à passagem do Rolls-Royce presidencial, no dia da chegada do presidente francês Charles De Gaulle ao Brasil. Lado a lado, o general anfitrião Castelo Branco e o general visitante De Gaulle. Sentados, a gente só via o quepe do brasileiro e toda a metade do corpo do grandalhão francês. Cômico.
Pois é, querida, como dizem os sábios, o que é bom dura pouco. Pois devo-lhe confessar que hoje já não tenho por você aquela mesma paixão que nos uniu por mais de sessenta anos. Para ser bastante franco, não sinto mais em você a mesma doçura que me conquistou. Desculpe dizer, mas você hoje está mais para diet. Onde se escondeu o sabor de hortelã que me perfumava os lábios? Você hoje não é mais nem um pouco parecida com aquela pastilha forte que sempre adorei.
Os poucos íntimos a conhecem por pastilha de Hortelã, da Garoto. Mas sou do tempo em que lhe apelidavam de “geladeira de pobre”. Mastigava-se uma pastilha antes de beber um copo água do filtro e a água descia geladinha. Hoje, para mastigá-la, é preciso dente de aço. É duro dizer, mas para mim você perdeu a graça. Não dá mais. É com o coração partido que lhe digo adeus.